Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Lúcia

imagem retirada da net

 

 

Lúcia fechou os olhos com muita força, com tanta que ficou com os olhos a doer. Queria desesperadamente impedir-se de ver, era isso. Talvez assim o mal desaparecesse por si só, e ela não tivesse que o enfrentar. Estava encolhida, joelhos e queixo no peito, mãos em volta das pernas. Um frágil lençol cobria-lhe o corpo todo, mas não chegou para a esconder dele, do filho. Aquele que ela gerara e saíra de dentro do seu corpo.

- Onde está? – Gritou ele com voz de nojo.

Silencio.

- Onde está? Diz-me! Já!

Tirou-lhe o lençol de cima com violência deixando a descoberto um monte de ossos, envoltos num fino pijama de algodão cor-de-rosa.

- Diz-me! Tu sabes que preciso do dinheiro, carcaça velha!

Ela limitou-se a estender o braço e apontar para a caixa da costura debaixo da janela.

Ouviu-o abrir a caixa, tirar tudo para fora com violência desnecessária e por fim, como para se vingar de algo que ela não sabia bem o quê, dar um pontapé na pequena caixa de costura amarela.

Ouviu-o depois sair, batendo com a porta da frente. Não o vira sequer. Não tinha coragem de enfrentar aquele olhar de dor e de maldade. Seria possível ter sido ela a gerar aquele monstro?

A custo levantou-se e olhou o céu azul por entre as cortinas que dançava ao sabor do vento na janela aberta. Sentiu o estômago vazio. Doía-lhe já há vários dias. Agora não sabia sequer como iria comprar o jantar, o almoço do dia seguinte e todas as outras refeições que se seguiriam até voltar a receber a reforma. Sabia que na aldeia todos confiavam nela e de certeza que o Ti Zé da Venda lhe fiava as compras do mês, mas também sabia que quando lhe pagasse ficaria sem dinheiro para as contas, os remédios, a comida e para o apetite voraz por dinheiro do seu filho perdido no vicio das drogas.

Escondeu a cara nas mãos e tentou chorar, mas em vão. Estava esgotada. Seca. Já chorara demais por ele.

João nascera já ela ia adiantada na idade. Ficara viúva ainda ele gatinhava e desde então vivera exclusivamente para aquele filho. A infância correu bem, era bom aluno, amigo dela, na adolescência já as coisas correram pior. Cedo começou a fumar e a fugir à noite pela janela para sair com os amigos. Depois começou a fumar erva e por fim perdeu-se nas drogas duras. A escola ficou por acabar e não havia emprego que lhe servisse. Agora Lúcia não sabe do que vive aquele filho. Sabe que o dinheiro que ele leva de sua casa não chega matar os vícios. Imagina então, histórias rocambolescas, que talvez não o sejam assim tanto, sobre a forma como ele arranja dinheiro para os vícios, para as sandes de queijo e para as cervejas que bebe, umas a seguir às outras no café central.

Já eram três da manhã e Lúcia continuava às voltas na cama. Doía-lhe o estômago vazio. Levantou-se a custo e foi à cozinha em busca de uma chávena de chá. É triste ser velha e estar só. Também é triste ser jovem e estar só, mas a condição de velha recusa-nos os movimentos, tolhe-nos os pensamentos e acentua o sofrimento, a saudade. Pôs a água ao lume para que fervesse. Abriu o armário onde há mais de quarenta anos guarda o chá. Nada. Estava vazio. Apenas uma bolacha partida e perdida. De resto, nada. Nada. Um armário vazio, e outro e outro. A lata do café também estava vazia. Derrotada, Lúcia deixou os braços cair ao longo do corpo e um estrondo de metal no chão que poderia acordar a vizinhança ecoou no silêncio. Uma lágrima e outra e outra. Estranha esta vida. Tanta esperança depositada num futuro que se revelou vazio, triste, perdido, negro. Aquele filho a quem tanto amou era agora o responsável por todo o seu sofrimento, por tanta e tanta dor. Voltou a deitar-se com o estômago vazio e dorido e com alma mais dorida ainda. Adormeceu já o galo cantava e as pessoas passavam na rua para a missa primeira.

O dia passou igual a tantos outros, com a diferença que tinha fome e não sabia como arranjar dinheiro para comer. Não tinha família. Os amigos há muito que a tinham abandonado recriminando-a por ajudar aquele filho transviado. Não tinha a quem recorrer. As vezes o pároco ajudava-a, dando-lhe comida ou roupa. Mas ela tinha vergonha e agora evitava até de ir à missa. Sentia vergonha da sua condição de velha sozinha, de mãe frustrada, de mulher desamparada.

Ficou o dia todo entre o sofá e a cama, demasiado fraca para reagir. À noite teve novamente a visita do filho.

- Mãe. Preciso de mais. Estou desesperado.

- Eu não tenho mais…. - Lia-se nos olhos dela o medo.

- Mas eu preciso! Não sabes o que sinto! As dores! É insuportável!

- Mas eu não tenho….levaste tudo o que tinha… passei o dia sem comer….

- Não quero saber! Vai pedir! Tens que me ajudar! Como podes ver o teu filho assim, cheio de dores e nada fazeres? Como podes ser tão desumana?

Noutros tempos ela ficaria verdadeiramente indignada com palavras como estas. Como era possível que aquele filho por quem tudo fizera lhe dissesse semelhantes coisas? Como era possível que não visse que não tinha mais o que lhe dar? Que se esgotaram todas as possibilidades, todo o manancial? Mas o que mais lhe custava era saber que ele não se importava com ela, nem com o seu bem-estar. Nada. Não tinha sentimentos por ela. Era apenas um meio de conseguir dinheiro. Agora, que já ouvira as mesmas coisas vezes sem conta já não conseguia sentir nada… respondia mecanicamente para não enfurecer ainda mais aquele ser descontrolado pelas drogas e pelos maus tratos da vida.

- Dá-me mãe! Dá-me mãe!

- Não tenho filho, não tenho…

Estava encolhida num canto do sofá. Ele de pé, olhando-a do alto, assustou-a verdadeiramente. Viu nos olhos dele uma loucura que nunca tinha visto antes. Uma raiva incontrolável. Viu nos olhos do filho uma cegueira sem retorno.

- Eu preciso! Eu preciso!

Já não valia a pena responder. Já não havia sequer resposta. Ele voltou-se e olhou em volta. Abriu gavetas, derrubou vasos. Os gatinhos de porcelana caíram com estrondo no chão. Abriu portas de armários e tolhas de linho e naperons de crochet foram parar ao chão espezinhados. Nada ficou no lugar, nada ficou inteiro. A loucura ergueu o braço daquele filho e deixou-o cair no corpo da mãe. Uma vez e outra. Uma vez e outra. Um urro saiu-lhe da garganta. E ela, encolhida, magoada, dorida, humilhada, derrotada, caída no chão, assim ficou quando ele se foi embora, não tendo sequer o cuidado de fechar a porta atrás de si.

Lúcia fechou os olhos e decidiu morrer. Não valia a pena a vida. Para que? Que tinha ela na vida? Que poderiam significar aqueles dias iguais, uns atrás dos outros? Para que?

Fechou os olhos e sentiu a vida sair-lhe pelos poros, sentiu-se elevar e percebeu que estava no tecto. Já não lhe doía nada. “Que grande alivio” - pensou ela. Pena que as coisas estivessem todas destruídas. Não fazia mal. Já não serviriam para mais ninguém. João nem sequer voltaria a pôr os pés naquela casa. Eram coisas de velha, fosse como fosse. Ninguém hoje em dia quer coisas de velha.

Foi então que Lúcia reparou em si. Estava ali no chão, em posição fetal. Um fio de sangue escorria-lhe pela boca. Os olhos fechados. A roupa em desalinho. Os cabelos brancos despenteados faziam-na parecer ter mais de cem anos. Nunca antes se vira assim. Curiosamente, não era esta a imagem que o espelho costumava reflectir. Achou-se mais feia. No entanto, o seu rosto parecia ter sido tomado de uma estranha paz. Há quanto tempo estaria ali assim? O sangue tinha-se espalhado e estava agora a chegar à carpete de cor castanha. Não se notaria muito se alguém a quisesse levar e lavar. Ouviu um ruído de vozes que pareciam estranhar algo. Eram as vizinhas que viram a porta aberta e entravam de rompante e viam-na ali estendida no chão. Uma pôs a mão na boca e começou a chorar, a outra soltou um gritinho de horror. A mais expedita ajoelhou-se e pôs a mão em frente a minha boca na esperança que ainda respirasse. Virou-se para as outras e abanou a cabeça em sinal de negação.

- Isto foi coisas do João…- disse a Tia Rosa do canto, vizinha de porta que bem sabia o que era o João e no que andava metido.

Uma ambulância veio buscar o corpo de Lúcia. As vizinhas foram para suas casas e ela já não tinha mais nada a fazer ali, naquele silencio estranho de uma casa que ela já não habitava. Acabara-se tudo de vez. Depois, como nos filmes, fechou os olhos, deixou-se cair e desapareceu. Para sempre.

 

Fim

22 De Abril de 2009

Cláudia Moreira

  

 

 

sinto-me: :/
publicado por magnolia às 10:42
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6 comentários:
De LEA a 5 de Dezembro de 2009 às 01:27
Mais uma que li, sem piscar os olhos... Adorei. Infelizmente cada vez acontece mais.
Beijocas grandes e bom fds
De green.eyes a 17 de Dezembro de 2009 às 11:49
Olá Claudia

Ultimamente tenho andado um pouco afastada deste mundo virtual, o meu tempo não estica ...

Mas não podia deixar de passar para lhe desejar um Feliz Natal para si e para a sua falimia

Beijinhos

Image
De FerdoS a 24 de Dezembro de 2009 às 14:19
Numa visita natalícia, resolvi, em jeito de Pai Natal, por aqui passar e uma prendinha vos ofertar...
Pensei e pensei, dei voltas e voltinhas ao vermelho saco e... Voilá!!!
Inspiração Divina, prendinha minha para que possas sempre as tuas belas histórias partilhar.
Sim, sei que este Sentir te irá Sempre acompanhar...
Festas Felizes repletas de harmonia familiar :)
Beijinho de amizade
FerdoS
De magnolia a 27 de Dezembro de 2009 às 22:04
Olá:)

Obrigada. Não há muito mais a dizer, apenas obrigada. Vou devolver a visita:)

Um beijinho e boas entradas
De Maria Helena a 30 de Dezembro de 2009 às 18:14
Passei só para desejar:
Feliz Ano Novo!
De magnolia a 31 de Dezembro de 2009 às 14:45
Obrigada e igualmente:)))

Beijinho de boas festas!!

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