Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Frágil máscara

 

imagem retirada da net

 

 

Na loja disseram-me que me ficaria um mimo. Eu não acreditei muito, mas depois de me ver ao espelho fui obrigado a concordar que me ficava esplendidamente. O espelho devolvia-me uma imagem bonita, um homem na casa dos trinta de smoking e laço preto. O cabelo penteado para trás dava-me um ar distinto e completava muito bem a personagem que eu queria mostrar. Estava com um ar distinto. Tinha a certeza que ela aprovaria.

Acabei de limpar as mãos e atirei a toalha molhada para a cama ainda por fazer. Aliás era assim que estava a maioria dos dias: os lençóis numa rodilha. Depois sai de casa e chamei um táxi.

- Para o restaurante Chez Antoine, por favor.

Estacionamos à porta e vi que ela já se encontrava à minha espera no pequeno bar que servia de apoio ao restaurante. Era uma mulher absolutamente deslumbrante. Estava sentada num banco alto e porque tinha as pernas cruzadas podia ver-se um pedaço de pele deliciosa pela abertura da saia. O decote generoso do vestido negro era uma verdadeira tentação. Avancei até ela com um sorriso nos lábios e não pude deixar de notar o brilho do diamante que ela carregava no dedo anelar.

- Desculpa o atraso minha querida, mas o trânsito está um inferno. Ainda bem que vim de táxi em vez de vir no meu carro, ou não teria como estacionar.

- Não tem importância nenhuma, estava aqui a saborear este delicioso martini. Não tem mesmo importância nenhuma…

Disse-o com um sorriso imenso que mostrava uns dentes brancos e perfeitos. Tive vontade de a beijar mas tive que refrear o ânimo, estava ali muita gente.

- Estás absolutamente deslumbrante!

- Obrigada, meu querido.

Depois do jantar seguimos para a casa dela de táxi. A noite estava tão agradável que saímos umas ruas mais cedo do que o devido e percorremos o resto do caminho a pé, de mãos dadas e a trocar segredos e sorrisos e olhares adocicados. Depois, já mais tarde, trocamos carícias e juras de amor deitados num tapete alto em frente a uma crepitante lareira acesa.

Depois desta noite seguiram-se outras noites igualmente maravilhosas. Depois as noites transformaram-se em semanas e em meses. E sei que ela estava absolutamente apaixonada. E eu confesso que me fazia bem a sua beleza, mas cobiçava mais ainda a sua conta bancária. Era nela que eu centrava os meus sonhos e projectos. A mulher, dona dessa mesma conta, era apenas um bónus belíssimo.

Foi então que tudo aconteceu e eu tive mesmo que deixar cair a mascara que tinha conseguido manter durante todos aqueles meses. E foi então que pela primeira vez me apercebi do que tinha feito.

Era dia de S. Valentim e estávamos a jantar no Chez Antoine, o mesmo restaurante onde tínhamos jantado na primeira vez. Há já alguns meses que não íamos lá, mas eu nunca suspeitaria de que lá trabalhasse agora uma pessoa que me desmascaria sem que eu pudesse fazer alguma coisa.

A pessoa que nos veio servir as entradas era o meu pai.

A minha primeira reacção foi a de fazer de conta que não o conhecia. Ele ficou calado durante alguns segundos que me pareceram horas. Depois sorriu como se me tivesse visto ontem e não como se eu tivesse passado tantos meses sem querer saber dele e da minha mãe. Eu levantei-me sem uma palavra para grande espanto da minha noiva. O meu pai deixou-me sair e sei que se retirou sem alarido porque foi ele mesmo que me contou depois como as coisas se tinham passado. Uns minutos depois ela veio encontrar-me encostado a uma das paredes da casa de banho, a suar frio e sem saber como continuar aquela farsa.

- Que se passa? - Perguntou-me ela.

- Aquele homem que nos serviu agora mesmo é meu pai e eu sou um pobre coitado. Tenho andado a mentir-te este tempo todo…

- Querias o meu dinheiro?

- Desculpa…

- Eu teria gostado na mesma de ti…pelo que és…mas agora já não osso nunca mais confiar em ti…

Foram as últimas palavras que me dirigiu. Nunca mais a vi, nunca mais me deixou chegar perto, nunca mais me deixou explicar. Não recebeu as minhas cartas. Não atendeu os meus telefonemas, não aceitou as minhas visitas. Perdi-a para sempre por causa de uma mentira que não consegui sustentar até ao fim. Nos dias seguintes fui capaz de perceber que afinal a amava. Senti saudades e a alma dilacerada com a sua ausência. Senti que não eram apenas os bens materiais que me faziam gostar dela. Era por ela também. Era uma mulher bonita e inteligente e tinha bom coração. Errei de uma forma absurda. Menti. Fui pequeno e ela não merecia. E apenas percebi isso naquele momento em que li a tristeza nos olhos do meu pai e uns momentos depois nos dela. Foi como se tivesse tido uma revelação.

Voltei à minha vida normal, mas aprendi uma lição. Sem duvida que aprendi uma lição. Sim, uma lição valiosa que me acompanhou até aos últimos dias da minha vida.

Escrevo hoje esta pequena história, dia 14 de Fevereiro, para que te seja entregue. Já não tenho muito tempo, restam-me talvez umas semanas de vida e não posso morrer sem que saibas que efectivamente te amei. Sem que saibas o quanto me arrependi pelo que te fiz em cada momento da minha desde aquela malograda noite.

 

Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias

 

sinto-me: ...
publicado por magnolia às 21:42
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2 comentários:
De green.eyes a 14 de Fevereiro de 2010 às 21:56
Obrigado Claudia, por nos brindar com um texto lindo.

Adorei, infelismente ainda vão aparecendo por ai muitos homens e mulheres de marcara, tentando enganar tudo e todos ...

Beijinhos

De magnolia a 15 de Fevereiro de 2010 às 16:38
Olá Ana:)

Muito obrigada pelo comentário. Eu sei que esta história é um cliché, mas também é uma realidade...e eu achei que se adequava ao tema.

Um beijinho grande para ti**

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