Domingo, 4 de Abril de 2010

A esplendorosa flor amarela

 

 

A cidade era caos. Apenas caos e nada mais. Os prédios destruídos pela guerra estavam ali silenciosos, lembrando aos que ainda restavam os dias de dor. Dias que ainda pareciam recentes nas suas memorias. Todos eles, sem excepção, estavam ainda cobertos de fuligem do fogo que os havia consumido. As poucas paredes ainda de pé ameaçavam ruir ao mínimo sopro de vento. Nas janelas nem um único vidro tinha sobrado inteiro depois daqueles dias. Tinham sido tempos de destruição e terror. Eles tinham avançado pela cidade trajados em tons de verde, montados nas suas máquinas maquiavélicas feitas de aço e tinham destruído tudo. As suas armas haviam conseguido dizimar logo no primeiro dia metade de toda a população da cidade. Mais tarde muitos mais os tinham seguido, abatidos pela doença e pela fome. Durante dias eles permaneceram na cidade fazendo um barulho infernal com as metralhadoras, as bazucas, os tanques de guerra, as vozes de comando, zangadas com o mundo e com eles próprios. Tinham saqueado as lojas de conveniência, matado quem se atrevia a fazer-lhes frente. Tinham destruído as árvores, espezinhado as flores dos canteiros. Tinham morto os animais de estimação, os gatos vadios, os vira-latas. Tinham esventrado selvaticamente os sem-abrigo, os pedintes de rua, os cegos e os estropiados. Tinham violado sem pudor nenhum as mulheres de todas as idades. E, depois de tudo isto, nem mesmo as crianças conseguiram escapar da malvadez dos homens armados, porque eles encontravam satisfação em vê-los perecer indefesos nas suas mãos.

Depois, sem aviso, e tal como tinham chegado partiram. Nenhum aviso, nenhuma palavra. Atrás, deixaram o caos absoluto.

Aos poucos o cheiro da putrefacção invadiu a cidade inteira. O lixo estava por todo o lado nas ruas levado pelo vento agreste que se fazia sentir. A doença que apodrecia os corpos cheirava ainda pior. Alguns tinham sido enterrados em jardins destruídos e pequenos quintais dizimados. Depois já não havia quem enterrasse os que iam morrendo. E esses, os últimos, ficavam por ali estendidos nos passeios e nas ruas, encostados aos muros ou postes de iluminação tombados onde exalavam o ultimo suspiro. Seria essa a sua última morada. Depois, dos corpos em decomposição começava a sair o cheiro nauseabundo da morte.

Para os que ainda restavam já não havia qualquer esperança. Sabiam o que os esperava. As crianças vagueavam sujas e tristes por todo o lado, apanhando do chão lixo para enganar o estômago vazio. Os adultos deixaram-se abater pelo desânimo e não se mexiam e deixavam-se estar caídos por todo o lado, derrotados. O silêncio era absoluto, apenas aligeirado pelo soprar do vento que por vezes soprava mais forte e zunia nas ruas desertas.

Muito tempo passou e nenhuma esperança morava ali. Depois, um dia, o sol despertou e inundou as ruínas de uma cor suave. Alguns meninos famintos olharam o céu e não compreenderam. Já não se lembravam do que era o sol. Tentaram levantar-se e não conseguiram mas olharam em volta tentado compreender. Parecia tudo igual com uma ligeira diferença de cor. Depois uma das mulheres mais jovens deu um grito e arrastou-se alguns metros. Tinha visto uma coisa que a tinha feito sorrir. A custo arrancou algo do chão e trouxe nas suas mãos encardidas para os outros verem. Era uma flor amarela que tinha conseguido furar aquele solo destruído e conspurcado pela violência dos homens. Todos tentaram sorrir. Custou muito de principio porque já não o faziam há muito tempo e os cantos da boca não queriam subir. Por fim conseguiram. A flor amarela ali estava na mão daquela rapariga. Todos se aproximaram da pequena flor amarela, tão simples, tão singela, mas absolutamente esplendorosa para eles. Era sinal de vida. Ainda havia vida a crescer naquele lugar por muito estranho que parecesse. Olharam uns para os outros e pensaram todos ao mesmo tempo na palavra ESPERANÇA. Talvez ainda fosse possível…talvez… Num momento todos se ergueram e foram à procura de mais flores amarelas. Com as unhas afastaram as folhas velhas e os ramos partidos e esgaravataram na terra à procura de rebentos verdes, de sementes, de qualquer coisas que revelasse vida. E encontraram. Encontraram vida! Encontraram vida e isso significava que era possível voltarem ser o que eram antes: humanos. Não foi preciso dizerem nada, cada um sabia o que tinha a fazer. Tinham apenas que o fazer depressa. Era urgente a vida. Demasiado urgente. Podiam não ter muito tempo mais.

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

sinto-me: pensativa
publicado por magnolia às 19:53
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4 comentários:
De green.eyes a 4 de Abril de 2010 às 20:26
... é Claudia ... a ESPERANÇA deve ser sempre a última a morrer ...

Bjs.
De magnolia a 5 de Abril de 2010 às 18:18
Deve ser e TEM que ser!

Uma boa semana para ti querida!

Beijinhos
De Luís Fernandes a 4 de Abril de 2010 às 20:54
Bonita história, Cláudia. Fermento de vida, semente de esperança. Parabéns.
Abraço.
Luís
De magnolia a 5 de Abril de 2010 às 18:20
Era isso mesmo que eu pretendia.!

Obrigada pela visita!

Abraco!!

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