Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

O Lobo-do-mar

 

Era noite e seria ainda durante muito tempo quando entrei no cais. Um nevoeiro cerrado, apenas interrompido pelas luzes da via pública, sepultava tudo. Era Janeiro e estava aquele frio que corta a pele deixando-a vermelha, gretada e dorida. O eco dos meus passos. As minhas botas a calcarem as pedras e a fazerem o barulho cadenciado dos passos. Com a mão livre ajustei a gola do casaco impermeável, na outra levava o saco do farnel que haveria de me sustentar durante a faina. Encolhi-me. Procurei com os olhos os outros mas estava sozinho. Era o primeiro. Parei por momentos e pousei o saco no chão. Ouvi o barulho característico da garrafa a tocar o chão através da lona. O prato, os talheres, a caixa de plástico hermeticamente fechada com o pão. A sopa na panela térmica. Acendi um cigarro e aspirei o fumo. Fechei os olhos, senti o prazer do fumo nos pulmões e expeli-o para o ar frio da noite. Uma nuvem clara de fumo desfez-se na minha frente. Tornei a arranjar a gola do casaco, aconchegando-a mais ao pescoço. Peguei no saco e retomei o caminho por entre as caixas de plástico empilhadas, as redes dobradas, as cordas de nylon e os colvos. Tudo à espera da madrugada para regressar à labuta.

 

Foi só quando já estava perto, muito perto do Lobo-do-mar que vi. A beata tombou dos meus lábios, a minha mão abriu-se sem que desse por isso e o saco caiu, incólume, nas pedras gastas do chão. Deixei de ouvir o marulhar das ondas a bater no cais. Deixei de respirar.

 

O Lobo-do-mar.

 

O meu barco, meu ganha-pão, o Lobo-do-mar. O meu ganha-pão e o de mais cinco homens do mar, o sustento de seis famílias estava a afundar-se. Apenas a cabine restava fora da água. Tudo o resto estava submerso, perdido, destruído. O sonho de uma vida estava destruído. Irremediavelmente perdido na água escura do cais, entre as algas e os restos de redes, as tainhas e o lixo que flutuava por ali. Em breve não restaria nada. Apenas a corda grossa que segurava o Lobo-do-mar ao cais ficaria visível para o lembrar. Talvez nem isso. Talvez o peso do barco a ser puxado para o fundo a rebentasse e não restasse mais nada…

 

Corri até à borda do cais e deixei-me cair de joelhos. Levei as mãos à cara e tapei-a. Em desespero fechei os olhos com força esperando, esperançado, que quando os abrisse nada daquilo fosse verdade. Alguns segundos depois quando os abri nada tinha mudado. O Lobo-do-mar continuava a afundar-se lentamente. Os caixotes de plástico onde costumávamos guardar o peixe estavam agora a flutuar por ali em redor da cabine do Lobo-do-mar. Bóias vermelhas e pedaços de esferovite também.

 

Como teria sido aquilo possível? Deixei-me ficar ali muito tempo, sentado nos meus próprios pés, braços caídos ao longo do corpo, quase inanimado, a olhar o desastre a acontecer.

Depois ouvi vozes aflitas e percebi que os outros estavam a chegar. Estavam a ver o que eu também estava a ver. Já não restava quase nada. Não havia mais nada que pudéssemos fazer para evitar a tragédia.

 

Levei vinte anos da minha vida a poupar para comprar o Lobo-do-mar. Depois mais cinco para o restaurar. Trabalho árduo de sol a sol, muitas vezes noites, domingos e feriados. E agora o que restava desse sonho era um lugar vazio ligado a uma corda grossa presa ao cais.

 

Senti que me levavam em braços. Senti que me davam algo para beber. Senti que me abanavam a cara. Ouvi vozes a falar sobre como estava sem reacção. Ouvi uma sirene e pensei no nevoeiro e no perigo de ir para o mar assim. Vi luzes azuis intermitentes.

 

Estava numa ambulância.

 

Abri os olhos e na minha frente apenas a imensidão do oceano. Eu estava novamente no Lobo-do-mar no mar alto. Eu a lançar as redes no imenso lençol azul e o sol a bater-me nos olhos, magoando-me. E eu a sorrir, feliz. As mãos magoadas das cordas e do nylon da rede, das horas na água e do sal na pele a doer. E eu a sorrir, feliz!

 

Ouvi vozes ao longe e quis abrir os olhos mas não consegui. Ao longe ouvi vozes difusas a dizer que o choque me tinha feito enlouquecer…

 

 

 

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira

sinto-me: de volta!
publicado por magnolia às 00:43
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De poetaporkedeusker a 7 de Janeiro de 2011 às 17:10
Gostei, Cláudia! Eu venho tarde, como de costume... pelo menos vou tentar ler os textos das co-workers :)
Abraço gde!
De magnolia a 10 de Janeiro de 2011 às 20:55
Olá Poeta!

Obrigada pela visita e nunca, mas nunca é tarde.:))

Um beijinho grande
De Natacha a 10 de Janeiro de 2011 às 11:33
Olá Cláudia,

Passo para ler as participações das operárias da fábrica, e gosto do que leio. parabéns :)
De magnolia a 10 de Janeiro de 2011 às 20:56
Olá Natacha:)

Sê bem-vinda :) Também já fui espreitar a tua participação:)

Um beijinho

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

.Julho 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Encerrado

. I love books

. Viagem inesquecível

. Hoje...

. O último retrato

. Post-scriptum

. Isa

. Página em Branco

. Chama Solitária

. Não há amor como o primei...

.arquivos

. Julho 2011

. Junho 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Março 2006

.tags

. todas as tags

.Visitinhas

.mais visitinhas

.Quem por cá anda...:)

blogs SAPO

.subscrever feeds