Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

O meu caminho...

imagem retirada da net

 

Um dia mandaram-me caminhar. Não me disseram qual o caminho a percorrer, nem por quanto tempo o deveria fazer. Disseram-me apenas: caminha. E eu caminhei.

Tem sido longo este caminho e embora saiba que terá um fim, não sei onde é, nem quanto tempo demorarei a chegar lá.

Ando há alguns anos a caminhar e o caminho, embora sempre o mesmo, não é sempre igual, nem sequer é em linha recta. Já tenho feito curvas apertadas, descidas íngremes e subidas acentuadas. Já tenho caminhado debaixo do sol abrasador, sem uma árvore de copa frondosa para me proteger, sem uma sombra que seja. O chão árido da seca que me faz sufocar com a poeira que levanto com os pés. A chuva que cai em dias de Inverno molhando as arvores nuas, as ervas daninhas e os muros tristes de pedra cinzenta e o meu corpo cansado.

Por vezes o caminho torna-se mais fácil, mais bonito. Quando caminho junto ao mar, sentido na pela a brisa do mar e ouvindo os gritinhos das gaivotas em namoro eterno. Olho o por do sol e sinto que vale a pena continuar a caminhar. Outras vezes passo em caminhos esquecidos, de terra batida, onde o cheiro das madressilvas é tão intenso que apaga o cheiro da terra, e as silvas que ladeiam os caminhos estão carregadas de amoras doces e frescas.

Cruzo-me com muita gente no meu caminho. Muita gente se cruza comigo. As vezes vejo gente num caminho parecido com o meu, paralelo, outras vezes apenas me cruzo com pessoas e de relance as cumprimento. Há ainda quem me acompanhe desde sempre e para sempre. Irei perder gente pelo caminho, gente cansada que encontrou por fim o seu destino, o seu lugar. Um dia será a minha vez.

Neste instante caminho numa estrada esburacada, e é difícil de ultrapassar os obstáculos, de contornar os buracos para não cair, tenho de estar atenta. Estou cansada porque caminho há já muito tempo com um fardo pesado nas costas. Mas não vou sozinha. Há outros caminhantes, outros que me vão amparando e a quem também vou ajudando. Olho para o céu e vejo-o azul, algumas nuvens salpicam-no de branco e o sol brilha radioso lá no alto. As árvores que ladeiam a estrada são altas e belas, de copas verdes e frondosas. Os dentes-de-leão e as miosótis crescem nas bermas sem licença, as ervinhas e os fetos também, transformando a terra numa festa de cor. Os pássaros cantam nas árvores e fazem ninho. E os pinheiros mansos que cheiram a resina deixam cair as pinhas repletas de pinhões saborosos. Olho o céu, e a terra e as pessoas que caminham comigo e penso que este é um caminho que vale a pena fazer…

 

 

Ficção para a Fábrica de Histórias

Autora: Eu própria, Cláudia Moreira

 

 

 

sinto-me: a reflectir
publicado por magnolia às 14:44
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Impossivel voltar atrás no Tempo...

imagem retirada da net

 

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Trai e agora não sei como voltar atrás. Pergunto-me porque o fiz. A resposta é amarga, demasiado amarga. Trai e agora sinto o peso do remorso a pairar sobre mim. Sinto um aperto no peito. Algo se partiu em mim.

Fiz tudo sem pensar. Aquela conversa. Depois, a meio hesitei. Mas por fim continuei a história que haveria de mudar o curso de várias vidas. Dava-me jeito, sei agora. Ela desconfiou que fui eu quem lhe disse. Que fui eu quem levantou o véu da discórdia. Tinha-lhe prometido jamais contar a verdade e falhei. Trai a sua confiança. E na verdade ele não lhe perdoou. A minha amiga teve um filho e esse filho não era do marido. O marido era meu amigo e o filho não era dele e no entanto, foi a ela que prometi não contar a ninguém a verdade, mas acabei por trair a confiança dela. Sim, eu gostava dele e achei que ele não merecia ser enganado assim. Mas quem era eu para julgar? Ninguém. Eu não era ninguém, era uma simples transeunte nesta vida ingrata. Mas arvorei-me em juíza e contei uma verdade inconveniente que acabou com duas vidas. Três vidas até. O filho também sofreu com isto.  Uma mulher que ficou destroçada, um marido que ficou com raiva, um filho que ficou desiludido. Três vidas mudadas para sempre porque eu me julguei no direito de julgar os outros. Quando penso no assunto digo para mim própria que estava a fazer bem, porque ninguém merece uma mentira destas, mas foi o egoísmo a falar mais alto, na cave mais funda e escura do meu ser, imaginei que ele ficaria comigo depois de saber a verdade. Não ficou. Ficou sozinho a lamber as feridas. Imaginei que não perderia a minha amiga, que ela compreenderia e perdoaria, não perdoou. E o filho deixou de me falar por revolta de lhe ter causado tanta dor… estraguei três vidas afinal. Quatro vidas, até. Também estraguei a minha. Nunca depois desse dia dormi uma noite inteira. Nunca depois desse dia deixei de sentir uma ponta de tristeza e amargura. Nunca depois desse dia me senti feliz por muito que o sol brilhasse.

Trai. Trai a confiança de alguém que confiou em mim. Nada justifica isso. Nada nos dá esse direito. E agora não há forma de voltar atrás, porque é impossível desdizer o que já se disse, impossível apagar as nossas acções, impossível voltar atrás no tempo.

Impossível voltar atrás no tempo…

 

 

 

(texto de ficção escrito para a "Fábrica das Histórias")

 

 

sinto-me: pensativa
publicado por magnolia às 18:37
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Um grito na noite...

imagem retirada da net

Pouco passava das onze horas quando o ouvi. Estava sentada na minha poltrona lendo um policial de Joanne Harris, quando ouvi aquele som. Primeiro não prestei atenção e achei que era fruto da minha imaginação, depois materializou-se na minha mente: um grito. Um grito carregado de medo, electrizante, assustador, longo, capaz de fazer tremer as pedras da calçada.

Levantei-me apressadamente e fui à janela. Lá fora, dançando na escuridão, apenas se viam as arvores altas do outro lado da rua. De resto, nada, nem vivalma. Confesso que me senti assustada e com vontade de mandar a lembrança daquele grito para algum lugar recôndito da minha mente. Mas ao mesmo tempo, o medo de que alguém precisasse de ajuda era tanto que não consegui. Vesti uma gabardina velha e pardacenta, minha companheira de muitos Invernos e desci à rua. Esqueci-me que levava calçadas umas chinelas gastas e só no silêncio da noite me apercebi que faziam demasiado barulho. Percorri uns escassos metros quando o vi. Estava ali, simplesmente ali, estendido no chão. Jazia inconsciente e indefeso no negro chão alcatroado e senti o sangue desaparecer das minhas veias. Pobre diabo. Que se teria passado ali, naquele beco mais escuro que breu?

A noite estava fria e chuvosa, escura e feia. Nem um raio de luar, nem uma estrela a brilhar, nada, nada. Apenas escuridão. As árvores com as suas copas altas continuavam a sua dança monótona ao sabor do vento. Ao longe o latido de um cão, os morcegos voavam em redor da iluminação publica como se estivessem hipnotizados pela luz amarelada e mortiça.

Verguei-me sobre aquele corpo e vi que respirava. Toquei-lhe. Um gemido saiu da sua garganta como se saísse das suas entranhas e uma mão saiu de dentro do casaco maltrapilho e agarrou-me o braço. Teve medo de mim. Também eu tive medo dele.

O homem que olhava para mim estava aflito, dorido, ensanguentado. Os andrajos que vestia mostravam que era um sem abrigo. Que faria ali? E agora? Que poderia eu fazer com aquela pessoa? Chamar uma ambulância, mas diria o que?

Depois de me certificar que o homem respirava, corri até casa e peguei no telefone. Mudo. Estava absolutamente mudo. O telemóvel não funcionava, estava sem rede. Mas será que era uma conspiração contra mim? Estava a ficar desesperada. Voltei novamente para fora, sempre a correr, sempre com os chinelos “rap rap” na noite, já pronta para o levar para dentro de casa, dar-lhe banho, comida, alguma coisa que o fizesse melhorar. Mas quando cheguei ao lugar onde estava o homem não encontrei ninguém. No sitio apenas um pássaro negro, morto, molhado e já em estado de decomposição.

Fiquei ali a olhar por tempo indefinido. Estaria eu louca? Nem um indicio de que ali tivesse estado alguém. As folhas caídas no passeio não estavam amassadas, não se via sangue, não se via nada, nada. Alguns minutos depois caí em mim e resolvi procurar o homem pelas redondezas, mas nem sinal dele. Nem já se ouviam os latidos dos cães. A chuva continuava a cair, uma morrinha fria que me molhou até aos ossos. Depois de um tempo, já a noite ia alta, desisti. Voltei para casa, deitei-me na cama e adormeci.

Na manhã seguinte acordei cheia de sono, mas com a firme convicção que tinha tido um pesadelo. Até me ri de mim própria. Até pensei: estás louca, a imaginar homens ensanguentados à tua porta, como se fosses uma heroína da banda desenhada!

Foi quando me levantei e senti frio que agarrei o robe e vi a mancha. Uma enorme mancha de sangue com a forma de uma mão humana. Um calafrio subiu-me pela espinha dorsal até aos cabelos, deixando-mos arrepiados.

Procurei-o por todos as ruas, becos, hospitais, morgues e nada, nem sinal dele. Ninguém ouviu falar de ninguém com aquela descrição. Ainda hoje, passados tantos anos não sei a verdade. Terá sido a minha imaginação a pregar-me uma partida? Uma pessoa que precisou de ajuda e entretanto alguém chegou primeiro? Ou algum acontecimento obscuro ao género da série Twilight Zone? O mistério permanecerá por longo tempo ainda, senão mesmo para todo o sempre…

 

 

 

(texto de ficção escrito para a ´"Fábrica das Histórias")

 

sinto-me: huhuhuh...:)
publicado por magnolia às 18:11
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A paisagem da minha vida...

imagem retirada da net

 

 

Naquele primeiro encontro eu não sabia lá muito bem o que esperar do Francisco. Falamos algumas vezes no bar da empresa, mas confesso que não estava muito esperançada. Ele era assim um pouco calado e tinha ar de quem passa muito tempo atrás de um monitor de computador. Mas como me convidou com o seu melhor sorriso, aceitei. Combinamos para sábado. Já estava a pensar que roupa haveria de vestir, atendendo a que não sabia a que restaurante me levaria quando ele me diz que vamos sair de manhã. A minha cara deve ter dito tudo, porque ele se desmanchou a rir.

- De manhã Francisco? Onde vamos?

- Vamos conhecer o lugar mais bonito do mundo!

Deixei-me ir sem muitas perguntas. Não sei bem porquê, mas confiava nele. Veio buscar-me de manhã cedinho e fomos estrada acima, sempre para Norte, o mar azul e o sol a servir-nos sempre de companhia. Foi já muitos quilómetros depois que me pediu uma coisa estranhíssima, pediu se poderia vendar-me os olhos para me fazer uma surpresa! Uma quantidade enorme de pensamentos estranhos invadiu a minha cabeça, mas concordei. Já que tinha vindo até ali, iria até ao fim. E fiz bem, porque no momento em que o Francisco me tirou a venda e vi a paisagem, fiquei sem palavras, tal era a beleza do lugar…

Estávamos num promontório. O mar azul, imenso, belo, estava a ali a perder de vista. A linha do horizonte mal se via tal era a intensidade do azul do céu. O sol derramava os seus raios brilhantes no mar, transformando as pequenas ondas em milhões de diamantes cintilantes. À minha frente ficava um pequeno miradouro feito de madeira já velha, um pouco carcomida pelo tempo. O chão estava sulcado de erva fresca e verde e aqui e ali florzinhas amarelas e lilases coloriam o chão. Um cheiro doce chegou-me às narinas e depressa me apercebi que eram madressilvas. Olhei para o lado e lá estavam alguns arbustos cobertos de madressilvas cheirosas. Pequenos pássaros cinzentos cruzavam o céu e de vez em quando uma gaivota assomava perto da arriba soltando os seus gritinhos agudos. O calor do sol aquecia-me a pele, e uma ligeira brisa afagava-me os cabelos e fazia dançar o meu vestido primaveril. Aproximei-me da arriba e encostei-me à vedação. Lá em baixo podia ver as ondas a rebentar furiosamente nas rochas, fazendo saltar espuma branca para todo o lado. Ao longe uma praia de areia branca e completamente isolada convidava a devaneios de verão. Que vontade de ir até lá, despir o vestido e entrar nas aguas azuis e frescas do mar.

Quando me voltei, Francisco tinha posto uma manta de trapos no chão, uma toalha de quadrados brancos e vermelhos em cima e esperava por mim para o almoço. Quando me aproximei, estendeu-me a mão e ajudou-me a sentar. Na cestinha de pic-nic feita em palhinha, trazia frutas da época deliciosas e champanhe. Conversamos, rimos, brincamos e a tarde passou tão depressa que nem me dei conta. O sol já estava com vontade de se esconder, o céu ficou laranja, rosa, coral, tantas cores, transformando-o num quadro digno de estar no Louvre. Andei até à vedação para me poder deliciar com aquela imagem. Uma brisa mais fresca fez-me estremecer. Nesse instante dei-me conta que o Francisco estava atrás de mim e me punha o casaco dele pelas costas. Ficamos assim, muito próximos, a olhar o mar, o sol a pôr-se devagarinho, desaparecendo aos poucos atrás das águas, sentindo-me tão tranquila, tão em paz que não tinha a mínima vontade de sair dali. E foi precisamente neste instante que nos olhamos nos olhos por um momento esquecendo tudo em volta, e aproximamos os nossos lábios num beijo tão ternurento e tão intenso que nada mais nos importou. Foi o primeiro dia do resto das nossas vidas e aquele lugar é o lugar mais perfeito ao cimo da terra. Ainda hoje, passados tantos anos, vamos lá em passeio a todo o instante e todas as vezes selamos o nosso amor com um beijo ternurento e intenso junto à vedação com vista para o mar.

(texto de ficção para a Fábrica das histórias)

 

 

 

 

 

sinto-me: sonhadora
publicado por magnolia às 12:36
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