Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Renascer

imagem retirada da net

 

Depois de ele ter ter sido enterrado ela deitou-se no chão em posição fetal e chorou. E chorou. Mas por mais que chorasse não conseguia lavar a sua alma. Estava negra de dor e tristeza. Acabara de perder tudo. O marido, o seu casamento, o amor de uma vida. Já nada mais lhe restava. Apenas a morte que tardava tanto em chegar.

Como poderia viver sem a razão da sua existência? De que servia trabalhar, ter uma casa, amigos? De que servia ter uma vida que já não fazia sentido viver? De nada… já não fazia sentido.

A custo foi sobrevivendo, vegetando, fazendo de conta que vivia. Passaram alguns dias e sentiu-me mal. Pensou que era da tristeza. Sim, ela sabia que a tristeza às vezes também mata e não se importou. Só mesmo quando a levaram em braços para o hospital é que seu deu conta que algo de errado se passava. Mas também não se importou.

Quando lhe vieram dizer que esperava um filho foi como se tivesse levado uma pancada. Sentiu-se atordoada. Uma dor visceral atravessou-a de um lado ao outro. Só lhe apeteceu morrer. Um filho de um morto. Nada poderia ser mais terrível.

Voltou para casa e a custo comeu, dormiu, trabalhou, mas nunca pensou no que lhe estava a acontecer, apenas pedia ao ser supremo que a levasse para junto do marido. Não queria viver nem queria ficar ligada a alguém que lhe lembrasse o marido defunto.

E assim os dias e os meses foram passando, uma estação deu lugar a outra e o dia da criança nascer chegou.

Estava cheia de dores e só maldizia a sua sorte. Estava sozinha, pois não tinha permitido a ninguém que a acompanhasse. As dores eram muitas e ela só chamava pelo marido morto. As enfermeiras estavam aturdidas. Nunca tinham visto uma mãe tão triste. Aos pouco perceberam que era uma jovem viúva amargurada e não lhe invejavam a sorte. Mas também não compreendiam como poderia ela não querer aquele filho. Mas na verdade ela não queria aquele filho e não se queria a ela própria. Estava demasiado deprimida.

A hora estava mesmo a chegar, na cama do hospital ela contorcia-se de dores. Gritava mudamente. A parteira ajudou-a com o bebé, uma enfermeira deu-lhe a mão que ela agarrou furiosamente e outra limpou-lhe a testa molhada. E por fim o bebé nasceu. Era um menino.

Ela não conseguiu reter as lágrimas. Era um menino tão lindo, pequenino, frágil, indefeso. Puseram-no em cima do seu peito. Ela devagarinho tocou-llhe e sentiu a pele quente, o corpo macio de bebé. Um choro baixinho saiu da sua boca e as mãozinhas no ar em busca de algum apoio. Aos poucos abraçou aquele corpinho, embalou-o nos seus braços cansados. Encostou a cara à cabecinha do pequenino ser e fechou os olhos. A emoção invadiu-a em ondas reflectidas. De repente sentiu-se cheia de amor por aquela criança. Ali dentro daquele bebé minúsculo corria o sangue do amor da sua vida. Era fruto dele. O seu próprio sangue também corria dentro desse bebé. Com muito, muito amor, eles tinham feito uma nova vida. As lágrimas secaram como por magia. O peso no peito desapareceu. Um sorriso tímido surgiu nos seus lábios. Sentiu o pulsar do pequeno coração no seu peito e viu pela primeira vez em muito tempo um raio de sol a entrar pela janela.

Quando lho tiraram do peito para o levar para limpar e vestir pareceu-lhe a ela que lho arrancavam à força. Tantos sentimentos que de repente mudaram dentro de si. A tristeza deu lugar à alegria, a raiva deu lugar à tranquilidade, a revolta deu lugar à paz e a angustia deu lugar a um amor enorme por aquela criança. Sentiu que nascia de novo juntamente com aquela criança. Sentiu que a alegria de viver nasceu de novo com aquele menino. Sentiu que a vida lhe deu uma segunda oportunidade de ser feliz. Aquele menino era uma vida nova e ao mesmo tempo era a continuação daquela que perdera. Sentia-se me paz, finalmente.

A enfermeira veio trazer um embrulho onde espreitava um rostinho minúsculo e perguntou como se iria chamar o bebé.

- Gabriel, como o pai…

 

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias

Autor: Cláudia Moreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me: pensativa
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Conto de Natal

imagem da net

 

 

Já estavam todos reunidos para ceia de Natal. Ele na cabeceira da mesa, a esposa andava ainda aos saltinhos da cozinha para a sala e da sala para a cozinha trazendo comida. Os filhos João e Joana estavam sentados do lado direito da mesa. Em frente os respectivos pares Maria  e Miguel. Na frente dele os dois netinhos maravilhosos riam-se de tudo e de nada, dizendo patetices como só os meninos pequeninos conseguem dizer. Na mesa tinham imensa comida, um bom vinho para acompanhar e no final teriam sobremesas deliciosas prepradas durantes o dia pela prestável e carihosa esposa.

Sentia-se feliz. Já tinha esquecido o incidente com o mendigo que se acercara dele de tarde à saida da fabrica. Os negocios tinham corrido lindamente nesse dia, fizera um negócio que renderia bastante dinheiro e vinha ainda a sorrir qando tropeçou literalmente naquele ser maltrapilho. Vadios, pensou. Não sabem fazer mais nada senão pedir. O homem ainda se tinha tentado agarrar ao casaco dele, mas sacudiu-o ferozmente. Ainda por cima cheirava terrivelmente mal. Há muito que estes mendigos rondavam por ali. Se ainda fossem pobres verdadeiros como os que morrem de fome em África, mas  aqui não há necessidade nenhuma disso. Têm bom corpo para trabalhar, dizia sempre ele.

- Senhor, não tenho casa nem familia...vivo aqui na rua....ajude-me por favor...

Virou-lhe as costas ostensivamente e foi para casa. A familia já o esperava para a ceia e na verdade ele estava mesmo muito ansioso por este Natal. Tinha comprado toda a lista de presentes para os miudos e estava ansioso por ver a reacção deles. Tinham sido coisas caras, mas tinha dinheiro e não poupou esforços para lhes agradar. Aos filhos reservara supresas na empresa...

- Querido, serve-te!

Acordou do devaneio e serviu-se da bela posta de bacalhau, que cheirava deliciosamente bem. Todos comiam com satisfação, riam e brincavam. Um disco enchia o ar com uma melodia de Natal. As luzinhas do pinheiro de Natal brilhavam, parecendo estrelas pequeninas.

Estava assim há algum tempo em contemplação, vaidoso por ter uma familia bonita e orgulhoso por ter dinheiro para a sustentar. Fechou os seus olhos por momentos para absorver aquela sensação. E voltou-os a abrir.

o espanto estampado no rosto, um grito entalado na garganta. Estava sentado na berma do passeio em frente à sua fabrica. Tremia de frio e doi-lhe o corpo todo. O cheiro nauseabundo chegou-lhe às narinas. Era o seu proprio cheiro. As mãos sujas e geladas doiam-lhe tanto como se estivessem a ser cortadas por mil facas. Tentou levantar-se mas as costas nao se endireitavam. Descobriu que as tinha tortas.

Tantas perguntas....

Caminhou a custo pela rua até que viu uma janela iluminada. O estômago contraido pela fome, um gosto fraco na boca colada. Já não se le lembrava há quantas horas estava ali sozinho. Quando chegou à janela viu que era a sua janela e estavam todos a jantar.  A lareira continuava acesa. Que vontade imensa de ir lá aquecer as mãos... Um homem estava sentado no seu lugar. Um homem que ele nao reconheceu.

Mas o que se teria passado? Tantas perguntas sem resposta...

Bateu à porta. O homem que vira sentado na mesa veio abrir.

-Vá-se embora. Não queremos cá pedintes.

Ele ainda tentou argumentar, mas já lhe tinham fechado a porta na cara. As lagrimas cairam-lhe pelo rosto. Não saberia suportar uma vida inteira assim, cheio de fome, de frio. Cheio de dores e cansaço, sentia que não teria capacidades sequer para pegar numa vassoura para varrer uma fábrica. Voltou para o seu velho cobertor. Enroscou-se bem, mas o estomago vazio nao o deixava dormir. Tiritava. Olhou para o céu e umas coisinhas brancas desciam devagar até pousar no chão. Nevava. Era noite de Natal e estava sozinho no mundo. Rejeitado e abandonado.

Pareciam que tinham passado muitas horas, parecia que aquela noite não tinha fim... Pensou no mendigo que enxotara e sentiu-se de repente com um nó no estomago, mas já não era fome, era arrependimento, era vergonha por ter julgado mal as pessoas. Era um sentimento indescritivel de amargura por saber que tinha tanto e outros nao tinham nada. Por saber que era feliz e nunca ajudara ninguem a sê-lo. Agora compreendia o quanto dói nao ter familia, nao ter amigos, nao ter apoio, ser doente, te fome, ter dores...

Foi nesse momento que viu um velho caminhar na direcção dele. Lembrava um pouco os druidas das historias dos elfos. Sentou-se à frente dele e disse:

-Feliz Natal para ti meu amigo... Creio que esta noite aprendeste uma lição...

As lagrimas toldaram-lhe os olhos e o homem desvaneceu-se na sua frente. Aos poucos as lágrimas eram tantas que nada conseguia ver...

- Pai! Pai! Que tens? Que sentes? Fala connosco pai...

Olhou-os quase sem ver. Estava de novo com a sua familia.

Saiu pela porta perante o olhar atónito de todos e voltou algum tempo depois com um mendigo.

Deixou-o aquecer-se um pouco, tomar banho e sentar na mesa com o resto da familia.

O homem mendigo chorava agradecido.

O homem rico chorava agradecido.

 

 

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me:
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

E foi assim...

imagem retirada da net

 

Íamos as duas de mãos dadas, saltitando felizes pelos passeios das ruas iluminadas para o Natal, vendo montras e chilreando como passarinhos na Primavera.

- Mãe! Olha que camisola tão linda!!

- Mãe! Posso ter aquela boneca? É tão linda!

- Vamos ver filha, vamos ver…

- Mãe! E aquele carrinho de chá?

Eu ria-me. E ela também. Tantos pedidos! Tantos desejos! Os olhos dela brilhavam de felicidade inocente.

- Olha! Olha! Olha! – Largou-me da mão e correu a colar o nariz no vidro da montra dos brinquedos. Um enorme comboio colorido corria pelos carris em miniatura deitando fumo pela pequenina chaminé. Que delicia.

Foi nesse momento que várias pessoas se meteram entre nós e deixei de a ver por escassos segundos. Apressei-me na direcção dela, mas quando cheguei ao pé do vidro já não a vi. O meu coração deu um salto e um grito ficou sufocado na minha garganta. Olhei para um lado e para o outro e via-a dobrar a esquina. Corri atrás e vejo-a a olhar para um menino de pé descalço e ranho no nariz que a olhava também. Ia para ralhar pois ainda não estava refeita do susto, mas fiquei a ouvir, protegida pela sombra da noite.

- Estás descalço? Não tens frio?

- Tenho...mas não tenho sapatos.

- Não tens sapatos? – a voz dela mostrava a surpresa que essa informação lhe causava.

- Não, não tenho. O meu pai é doente e não trabalha e a minha mãe também não. Está desempregada.

- Isso quer dizer que não vais ter presentes de Natal?

- Nunca tive nenhum. Às vezes o meu pai trazia uns brinquedos usados da casa de uns tipos ricos e dáva-nos. E roupas também. Mas agora não sai de casa e a minha mãe bebe muito.

A minha filha estava de lágrima no olho, pude perceber pelo tremer da sua vozinha de criança.

- Vou pedir à minha mãe para te dar um presente...

- Achas que ela faria isso? – a ansiedade na voz do rapazinho fez-me sentir um aperto no peito. E se fossem os meus filhos?

- Claro que sim. Eu peço coisas e ela dá-me, por isso se pedir para ti ela também vai dar!

Neste momento aproximei-me e pedi ao rapazinho que me levasse até casa deles. Dei a mão à minha filha e fomos andando por becos escuros e ruas sujas, bem diferente da rua de onde tinhamos vindo, cheia de luzes e pessoas bonitas e bem vestidas.

Entramos numa casa muito pobre. Lá dentro um homem estava numa cadeira de rodas e uma mulher estava caida no sofá a dormir. Duas crianças pequenas choravam num berço que já não era novo há muito tempo...

As lágrimas vieram-me aos olhos e ao olhar para a minha filha que ainda não tinha completado dez anos, vi que também ela chorava.

- Mãe...quero dar as minhas prendas todas a estes meninos...

Acariciei os seus cabelos e sorri entre lágrimas com tanta generosidade.

- A mãe vai resolver isto, não te preocupes.

Ainda antes do dia de Natal a mãe do rapazinho de pé descalço estava a trabalhar e tinham roupa suficiente para o Inverno todo. Montamos uma arvore de Natal e enchemos a despensa para um mês inteiro. No dia de natal fizemos questão de convidar esta familia para jantar na nossa casa.

Via-se que estavam felizes. Às vezes dar a mão a alguém pode fazer toda a diferença. A esta familia fez diferença e a nós não fez diferença nenhuma, ter mais um presente ou mais um pouco de comida na mesa. Repartimos o que tinhamos e tambem nós sentimos o nosso coração cheio de alegria.

Esta história já aconteceu há muitos anos, mas é uma história que se repete ano após anos. Eu e minha familia prometemos que enquanto tivessemos forma de ajudar o fariamos, por isso todos os anos por altura de Natal vamos à procura destes meninos de rua. Vamos tentar de alguma forma tornar o seu Natal mais bonito, mais quente, mais doce.

A minha filha cresceu e hoje é ela que trata disto tudo. Digo sempre que é ela a culpada desta tradição, e é, porque não houve ano nenhum que não tivesse sido ela a primeira a falar no assunto assim que Dezembro espreita no nosso calendário...

 

Texto de ficção para a "Fábrica das Histórias"

Autor: Cláudia Moreira

 

 

 

sinto-me: no espirito natalicio
publicado por magnolia às 00:26
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Uma boa acção

imagem retirada da net

 

Sentada na minha velha poltrana ouço a música que me derrete a alma. Faz parte de um dos filmes das minha vida. Canta-a Josh Groban e chama-se “Cinema Paradiso”. Como sempre que ouço esta música uma lágrima teimosa desce pela minha face e molha-me os lábios envelhecidos. É dezembro e está frio. A lareira acesa emana um calor convidativo e por isso deixo-me estar por ali, ouvindo música e lendo os meus livros tão velhinhos como eu. O josh continua a cantar e eu sinto o meu coração tão apertadinho como se alguém muito forte e musculado  me desse um abraço. Pela cortina entreaberta vejo nevar.

Levanto-me a custo, doiem-me as costas e já não consigo endireitar-me. A velhice chegou e não mais arredou pé. Sinto-a em cada osso, em cada articulação, em cada ruga e até na minha memória, antes tão fresca e agora tão esquiva. Afasto a cortina e lá fora neva, já está tudo branquinho e em breve o limpa-neves terá que passar por aqui.

É Dezembro e neva. E sempre que é Dezembro e neva eu não consigo deixar de reviver todos os momentos passados naquele Natal fantástico em que tudo aconteceu. Fecho os olhos e estou lá, com vinte anos e um sorriso nos lábios, força nos braços e muita vontade de mudar o mundo. E foi isso mesmo que fizemos naquele Natal, mudamos um bocadinho o mundo.

Estava frio, muito perto dos zero graus e tinha nevado imenso na noite anterior. Estavamos todos na brincadeira na neve atirando bolas uns aos outros quando atingimos sem querer alguém que ia a passar. A pessoa cambaleou e caiu. Todos nós ficamos a espera de ver a pessoa levantar-se e talvez ralhar connosco, mas nada acontecia, a pessoa continuava ali, caida no chão. Aproximamo-nos e vimos que era uma mulher de idade indefinida, coberta de trapos e cheia de frio. Ajudámo-la a levantar-se e vimos que tremia. Estava sem força para se levantar. Pedimos descupa e a pobre senhora em vez de ficar zangada pediu desculpa e voltou-nos as costas para ir embora. Depois de dois passos voltou a cair. Levamo-la para casa dos meus pais e juntamo-nos à lareira a beber um chá bem quente. A mulher não conseguia dizer nada, estava calada e continuava a tremer. Foi só uma hora depois que recuperou um pouco as cores e foi capaz de dizer algumas palavras. Ficámos então a saber que não tinha familia, nem casa, nem emprego, vivia perto da ponte, longe dos olhares da sociedade juntamente com outros sem-abrigo na mesma situação. O meu coração parecia saltar do peito ao ouvir aquela senhora a falar. Disse-nos que tinha sessenta anos e ficara sem trabalho perto dos cinquenta e que depois já ninguém a quisera empregar e o unico filho vivia longe e não queria saber dela. Por isso quando as prestações da casa começaram a ficar muito atrasadas puseram-na na rua e ela passara uma noite na rua, chorando, duas noites na rua, chorando, três noites na rua, chorando e que até hoje era rara a noite em que não tivesse chorado. Depois disse que no sitio onde costumava dormir viviam lá mais vinte pessoas nas mesmas condições. Contou-nos também que tinham acabado de perder um amigo e que não os tinham deixando vê-lo. A ambulância levara o homem sem nome de quase oitenta anos e nunca mais o viram. Nesta altura ela chorava e eu também. Estavamos todos calados, lembrando as nossas casas confortáveis e as nossas familias carinhosas. A mulher agradeceu muito e foi embora. E nós ficamos quietos, sem saber o que dizer áquela mulher, não a poderiamos deixar ficar, não tinhamos dinheiro, nem trabalho para lhe oferecer. Foi um momento de grande tristeza, já ninguem quis brincar mais na neve, nem sequer sair. Estavamos todos deprimidos com o que tinhamos ouvido. Depois nessa noite não fui capaz de dormir, vendo na minha mente as pessoas a dormirem debaixo da neve, tremendo de frio e cheias de fome. Já via a senhora a ser levada pela ambulância para a morgue e ninguém para a reclamar.

No dia seguinte levantei-me cheia de olheiras, mas determinada a ajudar aquelas pessoas. Falei com os meus pais e tive o apoio deles na minha ideia, reuni com os meus amigos e todos aceitaram, por isso metemos mãos à obra, obra que haveria de ajudar aquelas vinte pessoas, não só naquele Natal, mas para o resto dos seus dias.

Andamos pela cidade inteira, pedimos comida, cobertores, pedimos artigos de higiene, pedimos a cada familia que deixasse uma daquelas pessoas tomar banho e comer uma refeição decente uma vez por semana. Muitas pessoas nos fecharam a porta na cara perante tal pedido, mas muitas pessoas sentiram que era uma obrigação ajudar quem necessitava. No resto dos dias os nossos novos amigos tinham agora cobertores para fazer face ao frio. Também fomos aos grande hipermercados e pedimos uma ou duas tendas grandes para não ficarem debaixo da neve que insistia em cair todas as noites nesse ano. Estas foram as nossas primeiras e mais simples acções. Depois vieram as mais complicadas. Obrigamos, esta é mesmo a palavra certa, obrigamos o presidente da Câmara a receber-nos, queriamos que visse a possibilidade de arranjar casas para estas pessoas. Para algumas seria fácil, como já tinham alguma idade, podiam ser acolhidas num lar para idosos. Se uma destas pessoas fosse lá sozinha, não seria possivel porque não tinham ganhos, mas nesta altura já tinhamos cobertura mediática, em grande parte devido aos nossos conhecimentos no meio jornalistico, e o presidente não pôde deixar de ajudar para não perder votos nas próximas eleições. Para as mais novas que ainda não tinham idade para a reforma, foi-nos prometida uma solução, mas que tardou em chegar, por isso fomos nós proprios à procura dela. Pensamos que nada melhor para estas pessoas do que serem úteis de alguma forma, por isso levámos estas pessoas a fazerem pequenos trabalhos para outras pessoas como limpar a neve, cortar sebes, limpar terraços e pátios, carregar compras. Sempre sob o nosso olhar atento para que as pessoas não se sentissem com coragem para recusar ajudar. Aos poucos todos se foram habituando à presença destas pessoas. Pouco depois algumas delas que viviam mais confortavelmente arranjaram-lhes trabalhos simples, como limpar lojas e cafés ou lavar louça em restaurantes. Nesta altura já era do conhecimento geral esta campanha para ajudar os sem-abrigo da ponte. O presidente finalmente arranjou uma casa, que embora não muito grande, poderia abrigar todos do frio e da neve. Uma parte da renda pagava a Câmara e a outra pagavam eles mesmos com o dinheiro que iam fazendo nos seus novos trabalhos. A casa ficou pronta a habitar no dia 23 de dezembro e no dia 24 de dezembro foi lá que fizemos a consoada. Cada um de nós levou comida e um presente, além da familia. A casa era demasiado pequena para tanta gente, mas na mesa, nos sofás, no chão, toda a gente arranjou um lugarzinho para comer. O calor não faltou e o bolo-rei tambem não. Mas o que mais se viu naquela noite foram sorrisos. Lágrimas também, mas de felicidade. Depois disso, todos os anos nos encontravamos para celebrar esta data. Passamos todos a ser uma grande familia e de cada vez que perdiamos uma destas pessoas perdiamos um ente muito querido. E cada uma delas recebeu um funeral digno, simples mas digno a que nenhum dos restantes faltou.

Hoje resto eu e mais dois deste grupo maravilhoso de amigos. Um deles é meu marido. O outro é o nosso amigo mais querido e há-de vir aí pelo Natal para consoar connosco. Olho neste momento pela janela  e peço a Deus que olhe pelos mais desafortunados, que dê coragem e força  a quem melhor pode para mudar o mundo. Que não desampare os pobres, os solitários, as crianças e os velhos. Todos eles precisam de uma mão amiga e não há época melhor do que o Natal para fazer uma boa acção.

 

 

 

Texto de ficção escrito para a "Fábrica das Histórias"Autor: Cláudia Moreira

 

 

 

 

 

sinto-me: no espirito do Natal
publicado por magnolia às 01:10
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