Domingo, 29 de Março de 2009

Um dia no futuro...

 

Hoje acordei nostálgica. Não sei bem porquê. Talvez seja pela aproximação do meu aniversário. Vou fazer oitenta anos. Na verdade nem me costumo lembrar que tenho essa idade porque me sinto maravilhosamente bem. Como se tivesse apenas trinta anos. Não apenas me sinto como também pareço. O avanço da medicina e da tecnologia foi de tal ordem que hoje somos mais resistentes, quase imortais. A mim, apesar de viver neste século e ter mente aberta, nunca deixa de me surpreender este avanço. Nasci no século XX, sou uma mulher do século XXI, tive que me adaptar aos novos tempos, às novas formas de viver. No entanto, hoje tem sido um dia de saudade. Já há muito que não me sentia tão saudosa das coisas do passado. Quando de manhã me levantei, fui à janela e não a pude abrir. Eu já sabia que não poderia, mas fez-me lembrar os tempos de miúda em que abria a janela e o ar fresco da manhã entrava pelas narinas e viajava até aos pulmões, revigorando-os. Agora não o posso fazer, em lado nenhum. A poluição é tal que as janelas já não se fazem para abrir, é uma máquina que nos purifica o ar vinte e quatro horas por dia.

Depois desta primeira lembrança, muitas outras vieram em catadupa. O pequeno-almoço já não cheira a manteiga derretida no pão torrado, porque nos alimentamos de pequenas barras energéticas, o almoço também não, a fruta não sabe a nada porque é fabricada numa estufa e não apanha sol. Não há peixe. As águas estão demasiado poluídas. O que há é demasiado caro para os bolsos dos comuns mortais. Já nada sabe como antes… olho em volta e vejo a casa branca imaculada, sem nenhum grão de pó, miraculosamente limpa pelos novos sistemas de sucção de partículas e sinto falta de ver o pó que dançava no sol que entrava pelas frestas das cortinas na casa da minha avó. Nenhuma fotografia palpável num porta-retratos de madeira. Apenas imagens reflectidas nas paredes brancas. Em cada divisão um grande LCD por onde posso espreitar a vida dos meus filhos e dos meus netos. Mas tocar-lhes é impossível. Cada um tem demasiadas ocupações, demasiados interesses. A vida deste século é assim, sempre feita a correr. As pessoas desta metade de século só serão felizes quando conseguirem aumentar o dia para mais horas, as semanas para mais dias, a vida para sempre. Não tenho nada para fazer. Esta velhice que não é velhice, deixa-nos a todos assim sem saber o que fazer. Já fizemos tanto, já trabalhamos tanto, mas não nos sentimos velhos. Mas já não nos deixam trabalhar, dizem que temos que dar lugar a outros, aos novos. Então para que queremos ter mais anos de vida? Sinto-me tantas vezes uma inútil, um bibelô que ninguém sabe o que fazer com ele…

Sempre imaginei a minha velhice sentada numa cadeira de baloiço perto do mar com um livro na mão, tomando uma chávena de chá e vendo o por do sol. Os livros deixaram de ser impressos. Ainda conservo os meus livros, são relíquias. Mas já não há livros novos em lado nenhum para vender. As bibliotecas estão vazias. Foram trocadas por leitores portáteis de e-books, mais fáceis de transportar, mas que não dão prazer nenhum. Não se sente a textura do papel, nem o seu cheiro, não estão vivos como os livros. Também já não há pôr-do-sol. Minto. Há pôr-do-sol, mas não se vê. As nuvens escuras da poluição atmosférica tapam tudo, o céu azul, o sol, já não vale a pena olhar para o céu… por isso o meu sonho de velhice foi destruído. Para sempre. Vivo entre estas quatro paredes, sei que o mundo lá fora fervilha através dos meios de comunicação social, mas nada mais. Quase nada é permitido a alguém com a minha idade. Escrevo, leio um pouco nos meus livros, falo com outros velhos como eu pela world wide Web e exercito o corpo. Espero ansiosamente pelas festas para ver os netos e os filhos e passo muito tempo a olhar pela janela vendo a cidade pequenina, muito pequenina, trinta andares abaixo dos meus pés… uma existência estúpida. E tenho saudades. Tenho tantas saudades da minha vida de antigamente. Uma vida de muito trabalho, mas plena. Tinha dois empregos mas tinha os meus filhos perto de mim. Tinha que fazer o jantar todos os dias, mas podia saboreá-lo e cheira-lo. Tinha muita roupa para lavar, mas vestíamos roupas bonitas e coloridas e não estas roupas sem graça que nos obrigam hoje a vestir porque já não há lã, nem seda, nem algodão. Era tudo genuíno, palpável, concreto. Já nada é como antes. Nem sequer as relações entre as pessoas. Nem o amor. Nem isso. Hoje ninguém se prende. Ninguém ama para não ter que sofrer. Ninguém tem tempo de amar ninguém, de dedicar tempo. Já ninguém tem tempo de viver.

Espero que o dia acabe depressa. Quero ir dormir e esquecer estas memórias. A saudade às vezes dói. Vou fazer oitenta anos e os meus dias são assim. Vazios. Tristes. Quando não penso nas memórias os dias passam, uns iguais aos outros, mas passam. O pior mesmo são estes dias de saudade de um passado que não voltará jamais… Às vezes penso que não adianta ter mais saúde na velhice neste tempo se a velhice neste tempo é cada dia mais vazia e sem sentido.

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias por Cláudia Moreira

 

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Domingo, 15 de Março de 2009

Um feitiço chamado amor

 

Ela tinha chegado à aldeia há pouco tempo. Alugou a ultima casa da aldeia que ficava já um pouco metida dentro do bosque e do camião das mudanças descarregou todo o tipo de mobiliário estranho. Espelhos gigantes, panelas de ferro e muitas outras peças estranhas para aqueles habitantes da pequena aldeia. A primeira vez que apareceu na sua considerável altura e inteiramente vestida de preto, cabelo mais negro que a noite e com vários brincos na mesma orelha, as pessoas estranharam. Quando começaram a vê-la todos os dias vestida de preto estranharam ainda mais. Vinha á aldeia e não falava com ninguém. Tomava um café e saia no mesmo silêncio com que tinha entrado. Viam-na passar para o bosque e voltar com os braços cheios de plantas. Levava sempre consigo um saco preto enorme que levava a imaginação de miúdos e graúdos até ao infinito. Ouvia música estranha que se ouvia através das janelas sempre fechadas. Os miúdos começaram a espreita-la e viram fumo a sair da chaminé. E numa noite de lua cheia ela saiu acompanhada pelo saco preto e perdeu-se no meio dos campos. Foi o suficiente para que todos chegassem a casa com a notícia oficial de que aquela mulher era mesmo uma feiticeira e que ia fazer feitiços no campo com a ajuda da Lua cheia. Depois começaram a chegar pessoas estranhas à aldeia. Entravam na casa da feiticeira como lhe chamavam, ficavam algumas horas e depois iam embora. O consenso geral é que eram pessoas que vinham encomendar-lhes feitiçarias. Coisas terríveis e assustadoras. Ninguém se atrevia a falar-lhe ou mesmo a chegar-se muito perto. De noite ninguém passava pela casa e de dia só a alguns metros, muitos de distancia.

Era um grande mistério o que se passava dentro da casa do bosque. Ninguém na aldeia ficava imune a esse mistério e a imaginação voava e o medo aumentava. Ate ao dia em que chegou á aldeia o neto da dona Mariazinha, o João, e resolveu o mistério. Vinha de férias depois de muitos anos ausente e logo na primeira tarde lhe contaram tudo o que se passava na casa do bosque. Ele pensou logo tratar-se da imaginação fértil das pessoas, mas prometeu que iria lá no dia seguinte investigar a assustadora feiticeira.

Pela manha, não muito cedo, João saiu de casa para ir ver então a malvada feiticeira da aldeia. Chegou perto da casa e viu que estava tudo fechado, mas de dentro vinha o som de música estranha. João não era muito entendido mas pareceu-lhe que era algo no género de música gótica. Avançou até à porta principal e bateu. Ninguém atendeu. Bateu de novo. Nada. Já estava prestes a voltar para trás quando chegou uma rapariga que lhe perguntou se a Diana estava. João não fazia a mínima ideia de quem era a Diana e ia responder isso mesmo, mas não foi preciso porque no mesmo momento a porta abriu-se e ele pode ver uma mulher vestida de negro e cabelos longos, negros também.

- Olá. Entrem.

Entraram. João viu os espelhos que estavam espalhados pela casa. Cortinas de organza pendiam do tecto e vários caldeirões pretos perto das paredes estavam cheios de vasos de orquídeas.

- Podem ir ao quarto vestir as roupas.

João tratou logo de dizer que não tinha que vestir roupas, que vinha ali por outro motivo. A cara dela foi de interrogação. Como se dissesse “então que raios queres tu daqui?”

Então João explicou tudo do princípio. Que os habitantes a achavam estranha, que tinham receio dela. E que ela era sem duvida a personagem que mais povoava a imaginação daquela gente e que mais ocupava as bocas do povo. Então ela contou que era fotógrafa, que recebia muita gente que lhe pagava para fazer catálogos para poderem mostrar nas agências modelos. Explicou que adorava ir ao bosque passear, trazer ervas para as comparar com os livros, porque gostava de estudar a medicina alternativa. Contou também que andava a tentar fotografar a lua cheia porque queria ganhar um premio numa revista especializada em fotografia. Contou também que gostava de usar a lareira mesmo em dias de sol, porque o fogo lhe dava uma sensação de conforto. Também contou que não falava com ninguém na aldeia porque as pessoas a olhavam de forma estranha. Não só estranha como antipática.

Riram-se muito da situação. Ela convidou-o para ficar a ver a sessão de fotos. Ele aceitou. No fim ela mostrou-lhe algum do seu trabalho, que por sinal ele achou fantástico. Lancharam um bolo delicioso que ela mesma tinha feito. Já era de noite quando se aperceberam das horas. Diana queria que ele ficasse para jantar. Ele também queria, mas achou melhor ir para casa não fossem estar já preocupados.

- Então filho? Que se passou? Estávamos tão preocupados! Viste a feiticeira? Estávamos tão preocupados que ela te tivesse feito algum feitiço…

João desatou a rir com gosto.

- E fez!

Não continuou e por momentos pode gozar as caras assustadas da avó e da tia.

- Lançou-me o feitiço do amor…acho que foi amor à primeira vista. Ela é linda avó! E muito carinhosa. E faz uns bolos deliciosos! Amanhã volto lá para ser enfeitiçado mais um bocadinho…

E com isto riu-se muito contou toda a história, do princípio ao fim, perante o olhar incrédulo de todos. João estava desconfiado que eles ficaram um pouco decepcionados. Afinal, era muito mais interessante ter uma feiticeira na aldeia do que uma fotografa!

E com esta história se prova que uma mulher não precisa de aprender feitiços para agarrar as pessoas. A sua magia é o amor que sente e faz sentir. É a beleza que enfeitiça o coração de um homem. É a meiguice com que trata o seu amado. E claro está, que se souber fazer uns petiscos melhor! E pronto, não há feitiço como o feitiço do amor! Dura para sempre!

“Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das histórias”

 

sinto-me: pensativa
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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

A viagem da minha vida

 

 

O comboio avançava lentamente e eu de cabeça encostada à janela via passar os imensos campos de trigo pintados a ouro. De vez em quando uma mancha verde a lembrar um sobreiro salpicava a paisagem dourada. O céu estava tão azul que ofuscava e o sol brilhava intensamente lá no alto. Eu levava um vestido de algodão de alças finas de cor azul como o céu. Ia bem com o meu tom de pele, bronzeado nas praias alentejanas. Levava uma revista na mão e abanava-me devagar. Estava mole. Os quase quarenta graus estavam a deixar-me prostrada. A paisagem continuava a correr e o comboio continuava a sua marcha lenta: pouca-terra pouca-terra…

Na estação seguinte vi um bando de jovens de mochilas às costas e intimamente desejei que não viessem para a minha carruagem. Estava tão bem naquela modorra de fim de tarde, embalada pelo suave abanar do comboio, lendo, dormitando… E ainda faltava bastante para o meu destino.

Não entraram. Em vez deles entrou um homem de idade indefinida. Eu diria por volta dos trinta, mas também poderia ser quarenta. Educadamente disse boa tarde e sentou-se na secção de bancos ao lado da minha. Olhei-o de soslaio e não pude deixar de reparar nos seus traços finos. Estava vestido de forma casual, de azul por sinal e trazia um livro consigo. O livro foi o que mais me chamou a atenção. Confesso que me fartei de espiar o homem até descobrir o que estava a ler. Qual não foi o meu espanto quando vi que lia o mesmo livro que eu! Devo ter ficado a olhar com cara de parva, porque de repente ele estava a sorrir-me. Senti-me corar e tentei esconder o livro que tinha na mão. Demasiado tarde. Ele também já o tinha visto.

- Estamos a ler o mesmo. – Disse ele com um grande sorriso maravilhoso.

Eu balbuciei algo que ele não entendeu e eu também já não sei o que foi. Mas olhei-o e pude ver uns olhos azuis tão intensos que me hipnotizaram. Era sem duvida o homem mais bonito que vi até aquele momento! E para meu grande terror ele levantou-se e veio sentar-se no banco à minha frente.

- Olá. Eu sou o Gabriel.

E com isto estendeu a mão e agarrou na minha, num aperto de mão suave mas firme.

- Eu sou a Lara… – Gaguejei. Senti-me estúpida. Uma adulta a portar-se como uma adolescente.

Ficamos em silencio algum tempo olhando pela janela. Pelo canto do olho vi que me observava com os seus maravilhosos olhos azuis. Ganhei coragem e olhei-o também. Sorriu.

- Vamos tomar um café ao bar?

- Sim, obrigada. É uma óptima ideia!

Levantamo-nos e ele cedeu-me a passagem. Colocou uma mão nas minhas costas ao de leve ajudando-me a atravessar os corredores e chegamos ao bar do comboio. Sentamo-nos nos sofás de pele branca e tomamos um café horrível enquanto falávamos e eu já nem via a seara a passar. Contamos muitas coisas das nossas vidas e rimos de tudo e de nada. Confesso que me sentia nas nuvens. Que pena a viagem estar prestes a terminar…

Dali a pouco ele foi buscar as coisas dele. Saia na estação antes da minha e eu preferi continuar ali mais um pouco. Despedimo-nos com um abraço rápido, dois beijinhos e um sorriso. Quando saiu pela porta da carruagem senti um aperto no peito.

- Trouxe-te o livro para não te sentires tão só… – não estava a contar que voltasse para trás e apanhei um susto ao senti-lo tocar-me no braço.

- Ah! Obrigada, mas não precisavas….

- Assim pude ver-te mais uma vez…

E com isto chegou-se a mim e beijou-me os lábios suavemente e partiu. Ainda o pude ver na estação olhando-me, dizendo-me adeus até que o seu rosto se perdeu e deu lugar à seara e aos sobreiros e ao céu toldado de laranja de fim de tarde. O resto da viagem foi muito triste. Voltei para o meu lugar e preparei as minhas coisas para sair.

 

***

 

Por altura do meu aniversário já se tinham passado cerca de três meses e já não pensava tanto no Gabriel, o homem que me tinha roubado o coração em apenas três horas. Tinha sido tudo tão estranho. O encontro. A conversa. O beijo. A saudade. Tantos sentimentos confusos dentro de mim. A dificuldade em voltar para a minha vida normal depois de o conhecer. Que vida estranha. Mostra-nos a felicidade, para logo no-la tirar. Foi apenas um vislumbre.

No aniversário deram-me vários livros e andei a arrumar a estante. Peguei no livro que levava no comboio naquele dia e logo as recordações me atacaram furiosamente. Senti saudade. Senti uma dor física com a sua ausência. Folheei o livro e algo de estranho me chamou a atenção. Aquele não era o meu livro! Na primeira página podia ler em cima o nome do Gabriel e uma data, tal como eu também faço quando compro um livro e por baixo em letras bem desenhadas:

 

Querida Lara,

 

Não vais acreditar se te disser que estou apaixonado por ti. Eu próprio não acreditaria se me dissesses o mesmo hoje de manhã. Nunca acreditei no amor à primeira vista. E no entanto foi isso mesmo que aconteceu comigo hoje quando te vi pela primeira vez. O meu coração deu um pulo e disparou em marcha acelerada rumo ao desconhecido. Senti-me impelido a abraçar-te, a beijar-te os lábios perfeitos que tens. Seria loucura abandonar tudo e todos e pedir-te para fazeres o mesmo, agora, já, neste preciso momento. Não to posso pedir nem eu o posso fazer. No entanto pode ser que num futuro próximo queiras experimentar ter-me a teu lado…fica o meu coração nas tuas mãos…

 

Com amor,

Gabriel

 

Ps: a minha morada é….

 

 

 

 

Texto de ficção para a Fábrica das Histórias por Cláudia Moreira

 

 

 

 

sinto-me: sonhadora
publicado por magnolia às 15:51
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Domingo, 1 de Março de 2009

Máscaras da vida

imagem retirada da net

 

 

 

Mascaras da vida

 

Todos os dias a via entrar na sala de aula de sorriso gaiato e andar felino. Sentava-se e cumprimentava-me com um bom dia num ritual agradável que me fazia sorrir. Tinha dezasseis anos. Cabelos longos a tocar no fundo das costas, pretos como as penas de um corvo. Lábios carnudos e pele perfeita. Uma menina mulher belíssima, capaz de fazer virar muitos rostos. De livros debaixo do braço dizia:

- Bom dia! E sorria.

E eu:

- Bom dia menina - e sorria também.

Depois ficava vê-la afastar-se e pensava invariavelmente que dava gosto ver alguém assim feliz. Muitas vezes até a invejava.

Durante meses o ritual do bom dia e do sorriso repetiu-se todos os dias de segunda a sexta-feira. Comecei a conhece-la melhor e a ver que era uma miúda de trato fácil, inteligente mas pouco comunicativa. Raramente participava nas aulas, mas era aplicada e tinha boas notas. Um dia não apareceu na escola. E no dia seguinte também não. Perguntei aos colegas por ela e disseram-me que estava com problemas em casa. Como quem não quer a coisa indaguei onde morava ela, precisava de a ver, saber que estava bem. Não sei bem explicar o porquê, mas de repente senti-me apreensiva em relação aquela rapariga. Por isso meti os pés ao caminho e fui procurar o lugar onde me disseram que morava. Fui andando e à medida que ia andando ia entrando numa das zonas mais degradadas da cidade. Ela morava numa pequena casa num desses bairros a que chamam ilhas. Pelo caminho vi crianças descalças de ranho no nariz, vi sem abrigos, vi lixo por todo o lado. Vi tipos de aspecto duvidoso que me assustaram bastante. Toquei à campainha e foi ela mesma quem abriu a porta.

- Olá minha querida! Posso falar contigo um bocadinho?

- Agora não é muito boa hora, na verdade.

 Por trás ouvi uma voz de homem que perguntava de forma pouco agradável quem era. Ela voltou-se para trás e disse algo entre dentes sobre não ser ninguém.

- Não te tomo muito tempo querida.

Então ela fechou a porta atrás de si e ficamos frente a frente. Um olho negro e uma nódoa negra enorme no braço que ela tentava esconder com a camisola, mostravam que algo não estava bem.

- Que te aconteceu?

- Nada…

- Como nada?

- Nada, professora. Cai.

Nesse momento o pai abriu a porta e a cambalear chamou pela filha com modos agressivos. Ao ver-me hesitou. Creio que a minha presença o intimidou um pouco.

- Posso levar a sua filha a tomar um cafezinho ali na esquina? Não lhe tom muito tempo…

Ele vendo-se na impossibilidade de negar, fez um gesto com a mão indicando que podia, ela olhou-o antes pedindo autorização em silêncio. Ele deu-a mas com um olhar que dizia tudo. E eu sei que ela entendeu bem qual era o significado desse olhar. Queria dizer silencio.

Caminhamos em silêncio ate estarmos suficientemente afastadas da casa. Fi-la parar e olhei-a nos olhos.

- Diz-me minha querida. Foi o teu pai?

Ela assentiu com a cabeça e começou a contar que o pai era alcoólico desde que se lembrava. A mãe tinha abandonado o lar quando ela entrara na escola. Era ela que tratava da casa como sabia e podia. Ia à escola e comia decentemente porque contava com a caridade das vizinhas. O pai chegava a casa invariavelmente bêbado todos os dias e gritava com ela por tudo por nada. Outras vezes era pior e descarregava a sua ira através da violência gratuita. Então nessas alturas ela não ia à escola e ficava em casa até não se notarem as marcas dessa mesma ira. No resto do tempo ia à escola e fazia por esquecer o que se passava em casa. Afivelava a máscara de miúda normal e desfilava com ela até voltar a casa à noite. Assim ninguém lhe perguntava nada, nem tinham pena, nem a tiravam de casa como já haviam tentado antes. Apesar de tudo não queria ir para um orfanato. Não queria ser mais uma na estatística dos miúdos vítimas de violência infantil. Aprendeu a lidar com aquela vida, com aquela pai, com a pobreza, aprendeu a conformar-se com a vida que o destino lhe reservou.

Vim embora com o coração apertado. Estava impotente para resolver aquele problema. Sentia-me profundamente infeliz. Se por um lado queria ajuda-la por outro não queria fazer nada que a prejudicasse, nem que a fizesse mais infeliz ainda. Cogitei durante todo o caminho até casa no que ela dissera sobre as máscaras da vida. Ela era obrigada a pôr uma máscara todas as vezes que saia à rua para poder ter uma vida minimamente normal. Uma miúda de apenas dezasseis anos era obrigada a conviver com a realidade dura da violência, do medo, da falta de amor, da pobreza e ainda tinha que se mostrar alegre para ter a ilusão de que vivia uma vida normal, igual à de tantas outras miúdas da idade dela. Creio que era demasiado para uma miúda tão jovem. No entanto ela conseguia lidar com isso. Ou parecia saber.

Quando a voltei a ver, disse-lhe que lamentava que ela tivesse que usar a máscara novamente em vez de ser realmente uma miúda feliz. Ela olhou-me por um momento e disse:

- Na verdade não sou eu apenas que uso uma máscara todos os dias. Usamos todos. Só que para uns a máscara é um pouco mais parecida com a realidade e a minha é menos. A professora mostra exactamente tudo o que sente e se passa na sua vida?

Ela tinha razão, fui obrigada a concordar. No entanto não podia deixar de tentar ajudar, o problema dela era demasiado grave.

- Tenho um plano para te ajudar. Que dizes? Falamos no fim das aulas?

- Um plano? Não quero problemas professora…. - Mas os seus olhos brilharam.

- Sim, um plano. Não te quero ver mais de nódoas negras. Apesar de mostrares essa capacidade toda de aguentar a tua dura realidade, não conseguiria deitar a cabeça na almofada sem fazer algo para te ajudar. Queres ouvir?

- Espero por si no fim do dia.

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias por Cláudia Moreira

 

sinto-me: pensativa
publicado por magnolia às 23:03
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