Domingo, 13 de Março de 2011

Hoje...

 

 

Hoje despedi-me de um lugar que fez parte de mim a vida inteira. Um lugar que me viu crescer. Um lugar que me viu aprender a andar, cair e levantar, ser menina, ir à escola, crescer mais ainda, ser mulher. Um lugar com o sabor do sol de verão. Um lugar com a textura de uma pétala de rosa humedecida pelo orvalho da Primavera. Um lugar com o sabor dos figos comidos em cima da figueira, no Outono e o calor imensamente agradável de um fogão de lenha sempre aceso, todos os dias em que cheguei da escola, molhada pela chuva gelada de Inverno. O lugar mais ternurento do mundo, a casa da minha avó.  


Despedi-me deste lugar com o coração apertado pela saudade da voz tranquila da minha avó materna, da saudade das suas mãos de costureira que amassavam a massa para a boroa, que depois comíamos quente com manteiga a derreter. Já sabia que um dia teria que ser, mas só no momento se sente com rigor a dor das partidas…


Há quase três anos que nos deixou na saudade e parece que foi há tanto tempo… Faz tanta falta o seu carinho, a sua voz que nunca se elevava, a sua sopa de feijão rajado, o doce de tomate feito pelas suas mãos em tardes de inverno. Faz tanta falta o silencio daquela casa nas longas tardes de verão, do tic-tac do relógio no quarto quando ainda era obrigada a dormir a sesta. Faz-me falta o seu profundo olhar azul a dizer-me gosto de ti, em silêncio. Faz-me falta a minha querida avó.


Fechei as portas atrás de mim, uma a uma e deixei em cada divisão a saudade, mas trouxe comigo muitas lembranças, todas as que fui capaz de agarrar. Trouxe sorrisos e gargalhadas, choros e tardes de sol. Trouxe primaveras e amêndoas da Páscoa. Trouxe ameixas e manhãs de chuva à janela. Trouxe dias de brincadeiras e bolo de laranja. Trouxe tantas lembranças boas que por momentos me encheram o coração de lágrimas de saudades e sorrisos de alegria.


Fechei a última porta com dificuldade. Aquele lugar vai passar a ser de outra pessoa. De outras pessoas. Outras crianças irão correr pela casa e pelo quintal. Outros pais irão passar ali tardes de Domingo ensolaradas. Outras visitas irão apreciar o ar tranquilo do bairro aldeão. Outras memórias habitarão aqueles corredores, aqueles quartos, aquelas árvores que entretanto serão velhas. Outras pessoas usarão a cozinha para fazer pratos deliciosos e talvez deitem fora o velho fogão de lenha…


Olhei para trás uma última vez e pude ver claramente o rosto sorridente da minha querida avó a olhar-me. A mão acenava-me devagar. Por fim, pareceu-me que uma pequena frase se formava na sua boca bonita: até um dia…


E depois eu sorri e o nó desfez-se então na minha garganta…

 

 

Texto escrito para  a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira

 

 

sinto-me: nostálgica
publicado por magnolia às 23:23
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Domingo, 6 de Março de 2011

O último retrato

 

 

 

 

                

O Carnaval está ai à porta de novo. Sempre que se aproxima mais uma data importante parece-me sempre impossível que o tempo tenha passado tão depressa... Indigno-me e fico ligeiramente amuada e é mais ou menos por aqui que costumo ir rever o meu baú dos tesouros para comprovar que o tempo passou. Mas hoje não pôde ser logo quando me apeteceu porque ainda o almoço estava a ficar pronto no forno, quando chegaram os meus filhos, netos e bisnetos. Os mais pequenos traziam fantasias de abelhinhas, vaquinhas e outros animais fofinhos. Os mais velhinhos eram por momentos policias, índios e cowboys. Os meus netos já estavam ligeiramente grisalhos e as barrigas denotavam muitas horas de trabalho de secretária. Os filhos…bem os filhos já estavam quase tão velhotes como eu...

Almoçamos entre gritinhos e gargalhadas das crianças e os meus filhos procuravam aproveitar ao máximo a presença dos seus próprios filhos, os meus netos. Eu olhava-os enternecida e agradecia silenciosamente a Deus que me tivesse dado anos de vida suficientes para poder ver momentos maravilhosos como este. Apenas faltava ali a pessoa que tinha sido durante quarenta e cinco anos o meu companheiro de vida, aquele a quem tinha amado incondicionalmente e que me tinha sido arrancado dos braços há já dez anos. No entanto, a saudade era tanta como no dia em que, com apenas dezoito anos me tinha deixado ficar na plataforma da estação dos caminhos-de-ferro para ir cumprir o serviço militar, porque nem mesmo agora tinha deixado de o amar. Uma lágrima quis descer pelo meu rosto e a custo levantei-me, fingindo ir a cozinha, mas na verdade indo ao quarto que tinha sido o nosso. Fui até à caixa das fotografias. Precisava de lhe dizer que tinha saudades e que a família estava toda ali de visita e que os pequenos estavam lindos. Peguei numa das fotos mais antigas, depois noutra já mais velho, depois noutra e noutra e noutra. Quando dei conta já tinha muitas fotos espalhadas na cama que durante tanto tempo partilhamos.

Entre elas vi aquelas fotos que tantas vezes tínhamos visto juntos no passado... Talvez uma das mais antigas que ali estavam na caixa das memórias. Era uma das poucas fotos que tinhas trazido contigo no dia do nosso casamento. Contavas sempre entre muitas gargalhas que tinha sido um dia muito estranho o dia em que tiraram aquele retrato. Os avós tinham insistido que era preciso tirar um retrato dos netos porque estavam todos tão bonitos nos seus fatos de Carnaval. Dizias sempre que tinha sido um autentico milagre o fotografo ter conseguido que ficassem todos quietos e juntos para se poder tirar a fotografia. O que todos queriam mesmo era ir brincar e correr para o jardim. Tinha sido o último retrato de família antes que todos se começassem a dispersar.

Depois das gargalhadas olhavas cada uma das pessoas da imagem e contavas que a prima Maria, vestida de criadinha, tinha morrido no ano seguinte de tuberculose. O primo José, vestido de engraxador, tinha ido estudar para Coimbra e era agora doutor. O primo Manuel, vestido de arlequim, tinha ingressado no seminário e a prima Adelaide, vestida a rigor de dama antiga, tinha casado com um estrangeiro e depois disso não tinha voltado a Portugal. Contavas o que tinha sucedido a cada um e com o passar dos anos as histórias aumentavam o volume e evoluíam tal como a própria vida. Era a partir dali, daquela imagem, que construías as histórias da tua família para me poderes contar tudo o que eu não sabia de ti. Era para ti uma referência, uma cábula, uma memória em papel para não te deixar esquecer nenhum deles...  E, mesmo depois, quando a doença te começou a fazer esquecer as tuas memórias, gostavas sempre de ir ali à nossa caixa das recordações para lembrar o que por vezes teimava em querer desaparecer...

Com o retrato na mão olhei pela janela. Os meus bisnetos brincavam no meu pequeno jardim, os meus netos e os meus filhos estavam sentados nos bancos de jardim pintados de branco que eu própria tinha pintado há muitos anos atrás… Guardei tudo na caixa e limpei as lágrimas. Quando cheguei ao jardim levava comigo um sorriso aberto.

- Meus queridos filhos, tenho a certeza que um de vocês tem uma máquina fotográfica. Gostava muito de ter um retrato de família no dia de hoje… Acham que podem fazer esse gostinho aqui à vossa velhota?

 

Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das Histórias

 

publicado por magnolia às 23:36
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