Domingo, 24 de Outubro de 2010

Ser ou não ser

 

 

Ser verdade que tenho razão….ou não ser. Uma dúvida no coração, uma pergunta constante na boca. Penso que tenho. Tenho a certeza de que tenho.

O João quer um filho. Eu não quero. O João diz que sou egoísta. Eu digo que não. O João diz que é injusto e nisso até concordamos, porque o é, mas para mim.

Começamos a namorar há cerca de dois anos. Uma relação de brincadeira depressa se transformou numa relação concreta. Um mês depois de nos conhecermos o João mudou-se para minha casa. De filhos não falamos mas ele sabia de sobra a minha opinião. Eu tenho um filho a caminho dos vinte anos e o tempo de bebés e fraldas e papas já ficou para trás. Tenho praticamente quarenta anos e apesar de adorar o meu filho não me vejo novamente a passar pelos primeiros anos de vida de um filho.

Para mim uma mulher quando tem um filho recebe uma dádiva, mas, para que o seja efectivamente é preciso que esteja pronta. É preciso que esteja preparada porque depois da notícia da gravidez a vida de uma mulher muda tanto como se fosse viver para outra galáxia e se não estiver, poderá ser o contrário de uma dádiva, poderá ser uma fonte angustias. Nesse momento a mulher ainda não sabe, apenas está feliz, mas mais tarde verá que um filho muda o mais profundo de nós, interno e externo. Nunca mais uma mãe tem um minuto de relaxamento puro porque aquele ser que depende de nós nos enche a mente completamente, amedronta-nos o coração, faz-nos viver em alerta constante. É uma vida que está ali por nossa causa e pela qual somos responsáveis. E que não fossemos, amámos essa vida mais do que a nossa e isso por si só é uma prisão eterna. Depois a parte externa também representa uma boa dose de preocupações. O choro do bebé, as incertezas de mãe, os hematomas na cabeça, as gripes e a varicela. As alergias, as mãos a procurar tudo no chão. As brincadeiras perigosas, os estudos, os amigos que nunca sabemos quem são, os perigos eminentes desta nova era. As primeiras paixões, as suas lágrimas, o futuro incerto, a falta de emprego. Nada disto é fácil de gerir por muito que amemos os filhos. Uma mãe nunca dorme, nunca relaxa. E se tiver dois filhos tudo isto duplica e se tiver três triplica e por aí adiante.

E eu já não tenho condições para duplicar estas preocupações na minha vida. Anos e anos de luta deixaram-me esgotada.

O João diz que divide tudo comigo. Um homem nunca consegue dividir esta carga com a mulher. Pode ajudar, se for uma pessoa justa, se gostar dela e dos filhos, mas dividir a meio como ele faz crer não é possível. É a mãe que está sempre lá quando é preciso. É a mãe que carrega a criança, é a mãe que pare, é a mãe que amamenta, é a mãe. A mãe é a mãe, insubstituível.

O João acha que por não ter filhos tem o direito de me obrigar a tê-los. Acha que lhe devo isso. Pergunto-lhe então se acha que devo ter um filho por obrigação. Diz o João que se nos amamos é por amor. Eu digo-lhe que por amor então ele também aceitaria não ter filhos, por amor a mim. Mas o João insiste que o estou a privar de ter um filho. Eu digo-lhe que o pode ter com outra qualquer.

Raramente me sinto assim, indignada com ele. Mas agora sim, sinto-me indignada com ele. O corpo é meu, a vida é minha. Os homens podem permanecer ou não na vida das mulheres, os filhos ficam para sempre. Não me sinto com capacidade para pôr mais um filho no mundo. Não consigo abdicar da minha recente liberdade conquistada com o crescimento do meu filho. Não me sinto capaz de voltar a estar presa a um criança indefesa por mais dez ou quinze anos. Não me considero egoísta, apenas honesta com o meu eu. Custa-me pensar que este homem que diz amar-me me põe entre a espada e a parede. Custa-me pensar que alguém é capaz de achar egoísmo uma escolha de vida. Então também poderei considerar egoísmo alguém querer que eu passe nove meses grávida a agoniar, horas em trabalho de parto, noites e noites sem dormir, fraldas e biberões, galos e varicelas durante os anos que possivelmente serão os únicos que terei com saúde antes da velhice pura?

Não vamos conseguir concordar. Talvez tivesse sido bom falarmos nisso antes… Assim não haveriam desejos defraudados e lágrimas dolorosas. Talvez seja esta a nossa última discussão.

Retiro disto tudo que não adianta amar muito o nosso companheiro. Os nossos desejos estarão sempre primeiro. E além disso, da próxima vez que alguém me convidar para um café pensarei sempre duas vezes ou levarei comigo um questionário completo para preencher com todas perguntas, tentando antever todos os cenários possíveis e imaginários!!

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias, Cláudia Moreira.

sinto-me: :(
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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Dia de Outono

caminho de santiago out 2010- algures antes de Pontevedra

 

 

Dia de Outono

 

O dia ainda não tinha nascido e já eu estava de mochila às costas no local marcado para o início do passeio. Tinhamos combinado uma caminhada, a ultima desse Verão. Na verdade já era mais Outono que Verão, mas os dias ainda estavam quentes e não haveria problema em fazer a caminhada, desde que se saísse bem cedo para depois não sermos apanhados pela noite.

Por isso tínhamos combinado as sete da manhã. Estava fresca mas límpida a manhã. O vapor da respiração a sair da boca provava que o Verão já se tinha ido embora. Mais tarde, quando o sol ficasse bem lá em cima, já seria preciso tirar as camisolas e andar de t-shirt. E, se fosse como o costume, a transpiração seria abundante.

Depois de estarmos todos seriamos quatro. A Maria, a Joana e o Bruno e eu, é claro. Todos estávamos bastante habituados às caminhadas e por isso aquela seria pouco mais do que um passeio. Apenas vinte quilómetros e estaríamos lá em cima no ponto mais alto da montanha. Depois alguém nos iria buscar uma vez que não poderíamos pernoitar.

Depois de alguns quilómetros praticamente em silencio o sol começou a brilhar e nós também. Já era quase uma tradição, depois de tiradas as primeiras peças de roupa começavam as conversas. Nem sempre muito fácil porque caminhar a subir e falar não é fácil. Mas a verdade é que nos dava tanto prazer as caminhadas que era impossível não partilharmos e não falarmos, rirmos, partilharmos os nossos pensamentos. O ar puro deve ser como um “abridor de corações” porque ali na natureza intocada conseguíamos falar de tudo, contar os nossos maiores segredos, pedir conselhos e sermos nós mesmos sem qualquer problema. Era uma das coisas boas das caminhadas. Eram momentos de descontracção, amizade sincera, entreajuda. No inverno iríamos todos sentir muita falta desses momentos, eu sem dúvida.

Paramos para almoçar perto das duas da tarde. Paramos num lugar privilegiado. Dali podíamos ver o vale todo. As casas aqui e ali de aldeias perdidas, o rio a serpentear, preguiçoso. O verde exuberante dos pinhais. Onde estávamos era uma espécie de clareira na floresta verde. Mais para cima começaria a rarear. Sentamo-nos juntos e contemplamos a vista. Era absolutamente fabulosa e deslumbrante. Senti-me agradecida a Deus pela oportunidade de ver semelhante beleza. Sei que os outros também.

Depois subimos o resto da montanha até ao cume. Lá apreciamos a magnífica vista. Imaginei que fosse assim o paraíso. Verde em baixo e azul em cima. E sorri. Sorrimos uns para os outros, felizes.

Sentamos a lanchar. Em breve seria hora de voltar. Mais uma hora e o todo-o-terreno do nosso amigo e impulsionador das caminhadas iria estar ali para nos levar montanha abaixo. Até lá era hora de aproveitar aqueles momentos especiais. Deitamo-nos na erva seca e olhamos o céu.

Adormecemos. Já não era a primeira vez que isso nos acontecia. O problema é que desta vez ninguém nos acordou. Quando abri os olhos os outros continuavam a dormir e ninguém estava ali para nos ir buscar. Era tardíssimo e não estava ali ninguém. Achei estranhíssimo e por isso acordei os outros bruscamente. Ficamos preocupados. Em breve seria de noite e não tínhamos tenda, nem comida. Olhamos uns para os outros preocupados. E agora?

Descer não era viável pois de noite era complicado achar os trilhos. Pela estrada era demasiado longe e estávamos cansados. Os telemóveis estavam mudos há muito tempo. Ali não havia rede. Não sabíamos o que tinha acontecido ao nosso amigo e pensamos no pior. Um acidente. Só podia ter sido um acidente. De outra forma ele teria mandado alguém.

Agora já era mesmo noite cerrada e estava a ficar frio deveras. Mais frio do que de manha pois em terras altas há sempre mais frio. Nas mochilas tínhamos apenas agasalhos para a chuva e umas barras energéticas além da água. E mesmo essa estava no fim.

Um de nos pensou numa fogueira mas era complicado arranjar a lenha para a fogueira. A situação era deveras complicada. Ficarmos ali debaixo do céu aberto ate de manha era uma pneumonia pela certa. Esperamos mais um pouco na esperança de que a nossa boleia estivesse apenas atrasada. Mas nada. Ninguém apareceu.

Desconsolados resolvemos andar. Fomos andando pela estrada, montanha abaixo, cansados e cheios de frio. As barras já tinham ido e os estômagos estavam a fazer ruídos desagradáveis. Cinco quilómetros a frente sentimos as luzes de um carro atrás de nós.

Era a nossa boleia! Ficamos tão contentes que desatamos todos aos pulos no meio da estrada esquecendo a fome e o cansaço.

- Estive três horas à vossa espera!!! Onde estavam?

Ficamos a olhar uns para os outros incrédulos.

- No sitio que combinamos.

- Eu estive lá ate agora.

- E nos também!

Não podíamos compreender o que se passara. Não era possível estarmos todos no mesmo sítio e não nos termos visto!

Mas naquele momento só importava ir para casa comer, tomar banho e dormir! Nada mais importava! Ninguém queria saber das explicações. O único que estava bastante aborrecido era o Jorge, o nosso amigo que tinha estado as três horas à espera sem saber de nós e que estava a caminho do posto da guarda para nos ir procurar.

Mais tarde percebemos que alguém, e não fui, se tinha enganado a dizer qual o trilho que iríamos seguir. Posto isto foi fácil de perceber que tínhamos estado a espera uns dos outros a menos de um quilometro de distancia, cada um mais preocupado que o outro!

Mesmo assim ninguém ficou chateado. Era a última caminhada do Outono e estávamos bem e além de tudo agora tínhamos todos uma grande história para contar!

 

 

 

 

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

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Sábado, 25 de Setembro de 2010

Enredos...

 

imagem retirada da net

 

Continuação da história da Marta para o desafio desta semana da Fábrica das Histórias.

 

 

E agora, para finalizar, conto-vos esta ultima parte da história, e isto para que não fiquem na ansiedade de saber o desfecho. Não tenho vontade nenhuma de a reviver. Sinto a vergonha de quem cometeu um pecado mortal.

 

Estavam a ler-lhe os direitos e eu por momentos senti que tinha que ficar e assumir a metade da culpa. Por momentos o meu coração ficou do tamanho de um berlinde e pareceu parar. Ficava ali e entregava-me ou ia embora? Pensei depressa. Tinha que sair dali. Era o combinado. Meti as mãos nos bolsos e dirigi-me para a saída, tentando parecer apenas incomodado. No entanto ao tentar sair um grupo de gente histérica barrou-me o caminho. Um polícia postou-se diante de mim e eu olhei-o nos olhos. Sustentei o olhar. Depois virei-me numa tentativa de sair dali por outro lado e foi então que a vi. Estava tranquila agora, toda a preocupação que lhe vi no olhar minutos antes tinha desaparecido. No seu olhar li uma interrogação muda:

- Que vais fazer?

E eu hesitei um momento para a ver.

- Vai embora depressa! – Li nos seus olhos uma súplica.

Eu não queria deixá-la ali entregue aos leões mas também não queria ser apanhado. Olhei outra vez mas ela continuava de cabeça erguida, com pose de rainha. O seu vestido estava impecável assim como o cabelo. Era como se tivesse resolvido aceitar o inaceitável. As mãos atrás das costas e os dois gigantes fardados atrás dela eram os únicos indícios de que era ela quem estava na mó de baixo. Fez um gesto vago com o olhar e eu obedeci.

Virei as costas e juntei-me a uma pequena multidão que era escoltada pela polícia para fora do edifício. Deixei-me levar.

 

Depois, quando a luz do sol me atingiu em cheio percebi que talvez ela nunca mais a visse. Por momentos eu, o durão, senti-me quebrar. Sentei-me no chão no jardim em frente ao edifício onde a deixara e escondi o rosto nas mãos. O pensamento que me assolava era terrível. E continuava com o coração apertadinho. Momentos depois o pensamento terrível passou pela minha cabeça outra vez.

Gosto dela…

Não podia acreditar nisso. Não podia ser. Éramos colegas de profissão e nesta profissão não há este tipo de sentimentos. No entanto a dor que sentia de a saber presa para sempre era tão grande que eu não podia pensar em mais nada.

Gosto dela…

Estava perdido se este pensamento se materializasse. Estava absolutamente perdido. Sai dali a correr o mais que pude. Deixei para trás aquele cenário onde a multidão à porta dizia coisas como Meu Deus! e malandros, deviam estar todos presos, estes gatunos!, e corri o mais que pude, para bem longe dali.

Quando já não aguentava mais o cansaço e o meu coração parecia querer explodir, estava perto do mar. Fui até à praia e descalcei-me. Enterrei os pés na areia fria e caminhei até mesmo à beira da água. Entrei na água de roupa e tudo e deixei-me envolver pela água gelada durante tanto tempo que quase morri de hipotermia.

 

A primeira vez que a visitei pareceu-me bem. Já tinham passado alguns meses e ela já tinha sido condenada mas parecia bem, animada. Não me acusou de nada naquele dia nem em nenhum outro dia em que a tenha visitado. Fui visitá-la muitas vezes porque a amava. Pelo menos era isto que eu me dizia em silêncio. Talvez fosse apenas para descarregar a minha consciência pesada. Falamos muitas vezes do que aconteceu. Discutimos o que correu mal e o que deveríamos ter feito. Como nos sentíamos aquele dia. Falamos do homem que a seguira e a deixara tão nervosa. Falamos de tudo. Só nunca lhe disse que tinha descoberto naquele dia que a amava. Nunca lho disse.

 

Em vez disso transformei a minha vida numa vida normal. Arranjei uma profissão séria. Casei e até tive filhos. Quando a visitava nunca falava disso. E a minha família não fazia ideia do meu passado nem da existência dela. As minhas visitas à prisão eram um segredo absoluto.

E mesmo assim nunca a deixei de amar.

E os anos passaram e mesmo assim eu nunca fui capaz de lho dizer, mesmo depois de a ter visto definhar vagarosamente entre as altas paredes daquela prisão.

 

Aconteceu num dia em que ninguém a achou com boa cara. A depressão causada pela falta de liberdade e apoio da família tinha-se instalado definitivamente no seu corpo e alma. Estava muito magra e tinha cortado o cabelo tão curto como um rapaz. Já não a via sorrir há muitos meses mas nem assim fui capaz de lhe dizer que havia alguém que a amava profundamente e que estava arrependido de não me ter entregue também, dividido assim a culpa com ela. Telefonaram-me num dia de Novembro para avisar à falta de família a contactar. Tinha morrido de tristeza.

 

O dia do funeral foi uma segunda-feira de Novembro. A chuva fina não tinha parado de cair desde madrugada. Ainda se viam nas campas de mármore negro os restos mortais das flores do dia dos fiéis defuntos. Avancei por entre as lápides e os anjos e os Cristos e as imagens da Virgem pareciam olhar acusadoramente. E eu fui baixando os olhos. Não fui à capela onde o padre deve ter dito meia dúzia de palavras da praxe porque nem sequer a conhecia. Depois de uns minutos de solidão em que não consegui tirar os olhos daquele buraco fundo feito na terra escura e molhada chegaram. Era apenas um velho carro funerário com o condutor e dois rapazes vestidos de negro. O padre estava mais preocupado com a lama nos sapatos mas tentava fazer um ar sério e condoído muito próprio dos funerais. Não tinha mais ninguém. Nenhum familiar, nenhum amigo, nenhum colega da escola. Ninguém. Apenas eu e o padre e os dois funcionários da funerária que pareciam aborrecidos com o peso extra que foram obrigados a carregar.

Abriram o caixão para dizer uma breve oração. Não me parecia ela sequer. A roupa era grande demais e ela estava demasiadamente magra. O seu rosto estava pálido. Uma lágrima desceu pela minha cara mas ninguém viu porque ainda não tinha parado de chover. Desceram o caixão à terra e foram embora. O coveiro aproximou-se começou a tapar o caixão com pázadas de terra com a indiferença necessária à profissão. Depois que fiquei só sentei-me ali num banco de pedra e chorei. Não sei o tempo que fiquei ali, sei apenas que o cheiro a cedro era intenso e a minha culpa insuportável.

 

Os dias passaram e a dor começava lentamente a diminuir. Mas um dia tinha um embrulho estranho na caixa do correio. Era dela. Ela tinha deixado esse embrulho com uma colega da prisão. As instruções eram fazer-mo chegar às mãos se algo lhe acontecesse. Estava tudo explicado numa carta escrita por um punho cheio de tremuras. Todos os sentimentos escondidos desde anos antes de ter sido presa. Ela sempre me tinha amado. Sempre. E nenhum de nós tinha sido capaz de o dizer. O nosso amor perdera-se entre outros sentimentos menos valorosos mas definitivamente mais altos, a vergonha, a culpa, a ambição, o medo e muitos outros que não vale a pena listar. Junto com a carta o vestido. Toquei-lhe ao de leve e um arrepio percorreu todo o meu corpo. Lembrei-me então daquele dia em que ela o trazia vestido e senti uma saudade imensa. Abracei o vestido como se a abraçasse a ela. Depois guardei-o numa caixa juntamente com a carta.

 

Desde esse dia que visito a campa dela religiosamente todos os sábados de manhã, faça sol ou faça chuva. Converso com ela e digo-lhe em voz alta tudo o que nunca lhe disse em vida. Continuo a amá-la em segredo e sei que vou continuar a amá-la para sempre. A culpa de ter sido covarde nunca irá desaparecer mas ainda tenho esperanças que ela, esteja onde estiver, me tenha perdoado.

 

Já se passaram muitos anos e já sou um velho, mas ainda sinto falta dela. Estou sentado num banco de jardim e penso em todos os momentos que tivemos. Tenho saudades. Tenho muitas saudades. Infelizmente já não há como a trazer de volta. Resta-me pois agarrar-me à lembrança do seu sorriso bonito e sonhar.

 

 

Texto de ficção escrito por mim para a Fábrica das Histórias.

 

 

 

 

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Domingo, 12 de Setembro de 2010

Apenas uma canção

 

 

Quando entrei naquela sala não sabia o que me esperava. Não sabia como seria, nem quem lá estaria, nem o que se passaria. Não sabia que iria ser uma noite muito diferente de todas as outras noites dos últimos aniversários da minha vida.

Era o trigésimo sexto aniversário da minha vida e obriguei-me a ir à minha própria festa de aniversário. Estava sozinha e de coração partido. Uma festa era tudo o que não me apetecia, mas quando amigos de sempre nos fazem uma festa de aniversário não podemos deixar de ir. Por isso tentei dar-me um ar mais ou menos decente, pus um vestido bonito e forcei um sorriso na hora de entrar na sala.

Não esperava que a sala estivesse tão bonita e isso aqueceu-me um pouco o coração. A sala estava toda decorada ao estilo dos anos loucos do jazz, como se tivessem transportado uma sala directamente de Nova York para aqui. Um belíssimo piano de cauda ocupava um dos cantos. O banco atrás dele estava vazio esperando ansioso o pianista. Ao lado um homem tocava um solo maravilhoso no violoncelo, pouco mais do que um longo queixume. Apesar da semi-obscuridade da sala pude ver que as paredes tinham quadros com os mais famosos do jazz.

- Parabéns querida!

A minha melhor amiga estava ali para mim, fazendo uso do seu mais belo sorriso, oferecendo-mo sem pedir nada em troca. Ou talvez sim: um sorriso meu. Apenas um sorriso meu. E tudo porque nos últimos tempos esses sorrisos eram escassos. Ela sabia como estava a ser penoso suportar o fim de um breve casamento com um homem que supostamente era maravilhoso mas que se tinha revelado um canalha. Madalena era uma amiga como não havia outra.

Abracei-a e contive uma lágrima. Tinha o coração apertado. Depois todos vieram dar-me os parabéns. Família e amigos vieram abraçar-me e desejar as maiores felicidades e eu já não acreditava nessa felicidade.

- Vais ver que em breve essa dor será passado. Verás amiga…

E sorria.

Depois todos os meus amigos se envolveram em conversas animadas, bebendo champanhe e rindo alegremente. E eu sentia o meu coração prestes a explodir de tristeza. Estava já na segunda metade dos trintas e não tinha conseguido manter a minha relação. Em menos de nada estaria velha e já não teria quem me quisesse….Acabaria sozinha num lar de terceira idade…

- Sara? Sara? Acorda amiga! Estás longe…

Madalena sorria-me. E eu sorri de volta.

- Tenho aqui uma pessoa para te apresentar.

- Madalena, não é uma boa hora…- balbuciei.

Mas tarde demais. Ela já tinha chamado a pessoa em causa. Um homem bonito, jovem ainda, caminhou na nossa direcção e apertou-me a mão suave e firmemente.

- Muito prazer Sara de Almeida.

Eu nem fui capaz de responder porque por breves momentos só consegui olhar para aqueles olhos fabulosamente azuis. Creio que fiz figura de idiota porque dei por mim a vê-los trocar olhares risonhos como se dissessem que eu tinha aberto as asas e voado para muito longe sem os ter levado comigo!

- O prazer é meu…senhor?

- Apenas Gabriel.

E sorriu, mostrando um sorriso sincero e…deslumbrante!

- E já agora muitos parabéns.

- Obrigada.

A madalena tinha desaparecido e eu não sabia bem o que fazer a seguir.

- Eu sou o pianista.

- Ah! Muito prazer! E…não vai tocar?

- Estava apenas à sua espera… Hoje vou tocar apenas para si…

Mesmo sabendo que ele queria apenas dizer que tinha sido contratado para tocar na minha festa de aniversário, a verdade é que me apeteceu acreditar que ele queria mesmo dizer que só ia tocar para mim. Uns segundos depois ele agarrou-me na mão e arrastou-me até perto do piano. Pousou o seu copo e eu deixei-me estar encostada ao piano para não se notar o nervoso. Gabriel começou a tocar e dois segundos depois eu não me lembrava mesmo que estavam ali mais pessoas e achei que ele estava mesmo a tocar só para mim. Depois, mais tarde, bem mais tarde, quando já todos estavam nas suas casas dormindo o sono dos justos, nós continuávamos na sala da festa. Gabriel continuava a tocar para mim e eu continuava a ouvi-lo deliciada. Gabriel não me tinha deixado ir embora, pedindo para ouvir mais uma canção e depois mais outra e mais outra, até que todos já se tinham ido embora vencidos pelo cansaço.

Foi então que ele me puxou para o lado dele, fazendo-me sentar no minúsculo banco de pianista. Agarrou-me na mão e levou-a às teclas do piano, a mão dele sempre por cima da minha. Tocamos algumas notas ao acaso…

- Sabias que és linda Sara de Almeida?

Escondi os olhos envergonhada.

- És mesmo! E vou tocar uma canção para ti e só para ti.

E tocou e eu gostei tanto. E depois não fui capaz de sair dali. E por isso quando Gabriel tocou as ultimas notas e tirou as mãos do piano eu ainda estava ali. E por isso ele pôde beijar-me porque eu estava tão perto. E por isso é que nem fomos para casa naquela noite e em vez disso fomos ver o nascer do sol no telhado do prédio. E depois fomos tomar o pequeno-almoço e depois ficamos juntos para o resto das nossas vidas.

Madalena, uns dias depois da festa perguntou o que me tinha acontecido. E respondi tão prontamente que ela não duvidou da sinceridade da minha resposta.

- Apenas uma canção…

 

Texto de ficção escrito para a fábrica de Histórias

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Domingo, 18 de Abril de 2010

O Sexto Sentido

 

 

 

Ouvia-se perfeitamente o som alto da música que saia do carro. De resto o silêncio era absoluto e nem sequer os dois ocupantes do carro virado ao contrário davam sinais de vida. As rodas tinham parado de rodar no ar. A porta estava aberta e dela saia um braço inerte. Do outro lado um rosto ensanguentado estava colado ao vidro fechado que não partira. O acidente tinha sido aparatoso e fatal. Havia óleo na estrada e o condutor não tinha conseguido segurar o carro na curva. O resultado tinha sido uma violenta queda pela ravina de cerca de vinte metros. Primeiro ouviu-se os gritos dos dois jovens ocupantes do carro, depois o primeiro embate nas rochas, depois outro e por fim a queda final no fundo da ravina. Depois, silêncio.

 

****

 

Ela estava na cozinha entretida a cortar os legumes para a sopa. Na televisão um absurdo programa de entretenimento debitava gritinhos estridentes de alguma aborrecida apresentadora da moda, mas ela não estava a prestar atenção. Creio mesmo que trauteava uma das musiquinhas de momento que tinha vindo a ouvir na rádio local. Estava cansada, ma agora aliviada. Finalmente estava livre de um trabalho que a oprimia. Tinha sido capaz de dizer basta. E já deveria ter sido capaz disso há muito tempo, mas o seu feitio cândido nunca lhe tinha dado coragem para tal. Depois disso pegara no carro com a intenção de voltar para casa. Conduziu até perto do inicio da montanha que atravessava todos os dias e parou.

“ E se hoje não fosse por aqui? E se hoje fosse pela beira-mar?”

Todos os dias durante dez anos tinha feito aquela estrada para voltar para casa depois do trabalho. Conhecia-a como a palma da sua mão. Ir pela beira-mar era muito mais longe.

“Não. Tenho tanto que fazer em casa e o carro tem pouca gasolina. Vou pelo sítio do costume.”

Mas apetecia-lhe tanto ver o mar. Imaginou a estrada quilómetro a quilometro ate casa pela montanha e torceu o nariz. Não queria ir por ali hoje. Não queria. Por muito que a razão lhe dissesse para ir pelo sitio de sempre a verdade é que algo lhe dizia para não ir.

“Micas Maria, ganha juízo! Que coisa. Que vais agora fazer pela beira-mar? E logo hoje que ficas sem emprego e vai ser preciso poupar muito!”

Pôs o carro a trabalhar e começou a subir a estrada. O arvoredo deixava passar um ou outro raio de sol, mas em breve iria estar escuro porque já passava das seis da tarde. Um quilómetro à frente fez inversão de marcha e voltou para trás. Sentiu-se aliviada por ter tomado aquela decisão e nem percebeu porquê. Riu-se de si própria e achou-se uma perfeita idiota.

“Estou a ficar tonta com a idade é o que é!”

Depois em casa, tirou os sapatos calmamente, verificou a caixa de emails que mais uma vez estava cheia de porcaria e spam. Depois pôs o avental e dispôs-se a fazer o jantar. Teria visitas nessa noite. Um casal de amigos viria jantar com ela. Ligou a televisão para lhe fazer companhia e nem se importou qual era o programa.

A água já fervia na panela quando ouviu o locutor do jornal falar numa notícia de última da hora. Olhou para a televisão e algo lhe chamou a atenção. Pegou no pano da louça e ainda a limpar as mãos encostou-se à mesa da cozinha, atenta.

“… Temos um repórter no local que nos vai dar agora conta de como tudo se passou. Posso no entanto adiantar que os dois ocupantes da viatura acidentada faleceram a caminho do hospital.”

A imagem mostrava uma parte da estrada por onde tinha passado todos os dias nos últimos dez anos. Ela precisou de se sentar para não cair enquanto ouvia descrever o acidente e a hora a que se deu. Uma ideia passava-lhe pela cabeça de forma brutal. Ela deveria ter passado ali. Ela deveria ter passado ali naquela hora. Podia ter sido ela. Podia ter sido ela a cair naquela ravina. A ideia fez com que todo o seu corpo perdesse as forças. Se não estivesse sentada teria caído. Lembrou-se de não saber a razão de não ter querido ir por ali. Algo a tinha feito voltar para trás quando já estava a caminho. O que teria sido? Não sabia. Intuição? O sexto sentido de que todos falam? Não sabia. Sabia que aquela vontade repentina de ir pela beira-mar a tinha salvado de uma possível morte. Sabia que algo a impelira a voltar. E isso tinha feito toda a diferença. Por muito que pensasse não conseguia entender, mas não importava. Não importava. Importava que não tinha ido por lá. Tinha pena do casal que tivera a má sorte de passar ali aquela hora, mas não podia deixar de sentir um grande alívio por não ter sido ela. De uma coisa ela estava certa: a próxima vez que algo dentro de si lhe dissesse não vás, ela não iria.

 

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

 

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Domingo, 11 de Abril de 2010

Recomeçar do nada

 

 

 

 

 

 

Não foi fácil. Não foi mesmo nada fácil. As lágrimas corriam-me ligeiras pela cara sem que as conseguisse deter. No peito o aperto de uma tenaz. Mesmo assim tive que o dizer. Era preciso escapar daquela vida de cheiro fétido e começar tudo de novo. Era preciso ganhar coragem para um novo recomeço onde o sol fosse capaz de brilhar. Estava farta daquela vida de medo e angústia. Os últimos anos tinham sido passados a sofrer por causa daquele homem. Tudo tinha começado alguns dias depois do casamento. O homem por quem me apaixonei era um homem de má índole. De inicio eu não queria acreditar que me tinha enganado tão redondamente sobre o homem que escolhi para marido. Eu amava-o muito e sofri como nunca esperei sofrer no dia em que me bateu pela primeira vez. Foi como se me tivesse arrancado o coração do peito a sangue frio. Foi como se me tivessem arrancado a pele, centímetro a centímetro sem qualquer piedade. Depois atirou as culpas para os dias difíceis e para o álcool a mais e passou. Mas em breve a historia se repetiria. E repetiu-se muitas e muitas vezes. E nem eram precisas desculpas. Eu vivia aterrorizada e não sabia o que fazer. Queria libertar-me mas ao mesmo tempo não queria. Tinha medo dele e de não saber viver uma vida sozinha. Nunca tinha vivido sozinha. Tinha saído de casa dos meus pais menina directamente para a casa do meu marido. Durante o casamento ele nunca me tinha deixado tomar conta da minha própria vida. Hoje sei que ele o fazia para não me dar armas para lutar contra ele. Não queria que eu soubesse ser independente. Depois, um dia, comecei a pensar que talvez eu fosse capaz de viver sozinha, de tomar conta da minha própria vida. Pensei muito e ganhei coragem. Só faltava dizer-lhe. Só faltava encarar aquele rosto maldoso e dizer-lhe que queria o divórcio. Tive esperanças que talvez fosse possível divorciar-me e recomeçar uma vida ali, perto dos meus pais. Mas ele não aceitou bem o facto tal como eu já previa. Esbracejou como um afogado, depois vociferou como um condenado e por fim, ao ver-se encurralado pela situação e sem conseguir obrigar-me a mudar de ideias fez de mim um saco de pancada, mais uma vez. Foi então que admiti que não haveria qualquer hipótese de começar uma nova vida ali, perto daquele ex marido agressivo e possessivo. Teria que recomeçar uma vida do zero, longe, o mais longe onde fosse possível chegar.

De madrugada fiz um saco com roupa e alguns objectos pessoais. Depois olhei em volta para a casa que eu construi e decorei com as minhas próprias mãos e despedi-me. Não levava saudades no peito. Tinha passado ali, entre aquelas paredes, algumas das piores horas da minha vida.

Já na rua respirei fundo. Certifiquei-me que não era seguida e avancei calmamente para o carro.   Depois o barulho do motor do carro foi uma libertação. Estava pronta para recomeçar.

Depois, quando já o sol ia alto, comecei a pensar no que fazer. Não tinha nada planeado e era preciso um plano. Não um plano complicado, nada a longo prazo, apenas um esboço do que iria começar por fazer numa vida completamente nova. Era preciso saber por onde começar.

Continuei a fazer quilómetros até me sentir longe o suficiente, segura o suficiente, serena o suficiente. Precisava de reaprender a capacidade de respirar normalmente. Depois o pôr-do-sol estava tão bonito que o segui. Sai da auto-estrada e conduzi por estradas secundárias até avistar o mar. Uma pequena vila piscatória aparecia ao meu lado direito emoldurada pelo mar e pelo céu ardente de um fim de tarde de verão. Tudo estava perfeitamente tranquilo. Sai do carro e caminhei até à areia. Descalcei-me e fui molhar os pés cansados. A água fria provocou-me um arrepio na pele mas soube imensamente bem. Já não estava quase ninguém na praia. O sol estava quase a chegar à linha do horizonte e em breve desapareceria. O céu parecia uma pintura e no ar ainda podia sentir o cheiro a bronzeador. Senti-me em paz pela primeira vez em muitos anos. Senti-me renovada. Sabia que tinha um longo e difícil caminho pela frente. Sabia que não tinha dinheiro nem emprego. Sabia que seria preciso muita força para levar avante aquele recomeço sem sucumbir. Mas tive esperança e acreditei que seria possível. Pela primeira vez respirei profundamente e sorri. Desejei viver. Desejei ser feliz. E seria ali. Tinha a certeza que seria ali. Já me conseguia imaginar a viver por ali numa pequena casa caiada de branco que teria uma janela com cortinas brancas e que quando uma brisa as fizesse voar elas me deixaram ver um mar azul e imenso. Sim, tinha a certeza disso. Seria feliz ali.

 

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

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Domingo, 4 de Abril de 2010

A esplendorosa flor amarela

 

 

A cidade era caos. Apenas caos e nada mais. Os prédios destruídos pela guerra estavam ali silenciosos, lembrando aos que ainda restavam os dias de dor. Dias que ainda pareciam recentes nas suas memorias. Todos eles, sem excepção, estavam ainda cobertos de fuligem do fogo que os havia consumido. As poucas paredes ainda de pé ameaçavam ruir ao mínimo sopro de vento. Nas janelas nem um único vidro tinha sobrado inteiro depois daqueles dias. Tinham sido tempos de destruição e terror. Eles tinham avançado pela cidade trajados em tons de verde, montados nas suas máquinas maquiavélicas feitas de aço e tinham destruído tudo. As suas armas haviam conseguido dizimar logo no primeiro dia metade de toda a população da cidade. Mais tarde muitos mais os tinham seguido, abatidos pela doença e pela fome. Durante dias eles permaneceram na cidade fazendo um barulho infernal com as metralhadoras, as bazucas, os tanques de guerra, as vozes de comando, zangadas com o mundo e com eles próprios. Tinham saqueado as lojas de conveniência, matado quem se atrevia a fazer-lhes frente. Tinham destruído as árvores, espezinhado as flores dos canteiros. Tinham morto os animais de estimação, os gatos vadios, os vira-latas. Tinham esventrado selvaticamente os sem-abrigo, os pedintes de rua, os cegos e os estropiados. Tinham violado sem pudor nenhum as mulheres de todas as idades. E, depois de tudo isto, nem mesmo as crianças conseguiram escapar da malvadez dos homens armados, porque eles encontravam satisfação em vê-los perecer indefesos nas suas mãos.

Depois, sem aviso, e tal como tinham chegado partiram. Nenhum aviso, nenhuma palavra. Atrás, deixaram o caos absoluto.

Aos poucos o cheiro da putrefacção invadiu a cidade inteira. O lixo estava por todo o lado nas ruas levado pelo vento agreste que se fazia sentir. A doença que apodrecia os corpos cheirava ainda pior. Alguns tinham sido enterrados em jardins destruídos e pequenos quintais dizimados. Depois já não havia quem enterrasse os que iam morrendo. E esses, os últimos, ficavam por ali estendidos nos passeios e nas ruas, encostados aos muros ou postes de iluminação tombados onde exalavam o ultimo suspiro. Seria essa a sua última morada. Depois, dos corpos em decomposição começava a sair o cheiro nauseabundo da morte.

Para os que ainda restavam já não havia qualquer esperança. Sabiam o que os esperava. As crianças vagueavam sujas e tristes por todo o lado, apanhando do chão lixo para enganar o estômago vazio. Os adultos deixaram-se abater pelo desânimo e não se mexiam e deixavam-se estar caídos por todo o lado, derrotados. O silêncio era absoluto, apenas aligeirado pelo soprar do vento que por vezes soprava mais forte e zunia nas ruas desertas.

Muito tempo passou e nenhuma esperança morava ali. Depois, um dia, o sol despertou e inundou as ruínas de uma cor suave. Alguns meninos famintos olharam o céu e não compreenderam. Já não se lembravam do que era o sol. Tentaram levantar-se e não conseguiram mas olharam em volta tentado compreender. Parecia tudo igual com uma ligeira diferença de cor. Depois uma das mulheres mais jovens deu um grito e arrastou-se alguns metros. Tinha visto uma coisa que a tinha feito sorrir. A custo arrancou algo do chão e trouxe nas suas mãos encardidas para os outros verem. Era uma flor amarela que tinha conseguido furar aquele solo destruído e conspurcado pela violência dos homens. Todos tentaram sorrir. Custou muito de principio porque já não o faziam há muito tempo e os cantos da boca não queriam subir. Por fim conseguiram. A flor amarela ali estava na mão daquela rapariga. Todos se aproximaram da pequena flor amarela, tão simples, tão singela, mas absolutamente esplendorosa para eles. Era sinal de vida. Ainda havia vida a crescer naquele lugar por muito estranho que parecesse. Olharam uns para os outros e pensaram todos ao mesmo tempo na palavra ESPERANÇA. Talvez ainda fosse possível…talvez… Num momento todos se ergueram e foram à procura de mais flores amarelas. Com as unhas afastaram as folhas velhas e os ramos partidos e esgaravataram na terra à procura de rebentos verdes, de sementes, de qualquer coisas que revelasse vida. E encontraram. Encontraram vida! Encontraram vida e isso significava que era possível voltarem ser o que eram antes: humanos. Não foi preciso dizerem nada, cada um sabia o que tinha a fazer. Tinham apenas que o fazer depressa. Era urgente a vida. Demasiado urgente. Podiam não ter muito tempo mais.

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

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Domingo, 28 de Março de 2010

Saudades

 

 

 

 

Querido,

Esta noite sofri como não me lembro nunca de ter sofrido... Esta noite foi das noites mais difíceis da minha vida, das mais negras... Querido, foste embora e eu fiquei sozinha na noite, perdida entre os fantasmas do passado. As horas sucederam-se e eu sem conciliar o sono. As saudades fizeram doer cada centímetro da minha pele, cada fio do meu cabelo... Não conseguia tirar da cabeça a imagem dos teus olhos profundamente verdes procurando os meus numa ansiedade imensa, do teu rosto inteiro e perfeito tão perto do meu. Não conseguia deixar de imaginar-te perto de mim como em tantas e tantas noites que passamos juntos, noites em que querias estar tão perto de mim quanto era humanamente possível. Doeu sentir saudades dos teus lábios pousados nos meus, desejando sofregamente mais e mais. Os teus lábios na minha pele dourada pelo sol. Ah, meu querido, é insuportável pensar que jamais sentirei i sabor da tua boca, da tua pele ligeiramente salgada depois de horas de paixão. O meu peito que não sentiu o teu toda a noite e quase sufocou. Lembrei cada detalhe dos teus dedos quando de forma suave querias sentir a minha pele do pescoço e dos ombros e delicadamente ias descendo até seres dono de todo o meu corpo. Preciso tanto que voltes para atenuar esta dor feita de uma saudade imensa. Preciso de voltar a sentir o amor imenso das noites que passamos em claro, descobrindo o corpo um do outro, entregando-nos um ao outro sem pudor mas com uma paixão desmedida… Lembras-te de cada vez que pensávamos ir dormir e nos tocávamos inocentemente? Lembras-te como isso era suficiente para nos despertar para mais uma noite de loucura e paixão? Tenho saudades, querido…repito-me bem sei, mas tenho tantas saudades…quero beijar-te, beijar-te tanto até perder a respiração….quero amar-te tanto que não sejas capaz jamais de me deixar….

Foste embora e eu fiquei só. A noite toda a pensar na tua ausência, a senti-la como uma faca espetada no peito... Na madrugada a dor física foi-se desvanecendo e a dor da alma atacou em força. Não há nada capaz de atenuar esta dor…nenhuma lembrança, o teu cheiro na minha almofada, na minha camisola que não tenho coragem de lavar…Nada, nada é capaz de apagar esta saudade…. Não consigo deixar de lembrar as tuas mãos brancas e macias enlaçadas nas minhas. A tua barba quase sempre por fazer a roçar o meu rosto, fazendo sempre com que eu solte um risinho de adolescente. Dá-te um bom ar a barba, um ar de desprendimento pela vaidade e coisas materiais que eu tanto aprecio…. Já to disse antes, penso, mas repito-to agora mais uma vez meu querido…és tão belo, és tão perfeito… não saberei agora viver sem ti… Nem nunca…

Querido, quem me virá agora dizer bom dia no ouvido? Um bom dia murmurado mas que no meu coração soava como a voz mais belamente timbrada do mundo? Quem me dirá agora palavras de amor? Quem me fará rir? Quem agora me segurará na mão em dias de tempestade? Quem me virá beijar a testa com um sorriso capaz de derreter a maior montanha de gelo do mundo? Adoro esse gesto…Não serei capaz de viver assim….Sem ti…

Ainda não me levantei da cama…Não me apetece. Estou aqui apenas a tentar que nenhuma das memórias que guardo de ti se consiga escapulir pela janela. Não a irei abrir mais, a janela. Não quero. Quero continuar a sentir as tuas mãos no meu corpo, a tua boca na minha boca. Quero continuar a sentir o teu cheiro deliciosamente inconfundível. Quero continuar a sentir-te, inteiro.

Sabes? A vida perdeu a cor. A saudade dói. E sei que nenhum dia jamais será dia porque a escuridão tomou agora conta da minha vida… como pode voltar a ser claro sem ti? Não poderá jamais… Nunca… Será noite para sempre…

Amo-te daqui até à lua e depois da lua até aqui.

Saudades de ti

M.

 

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

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Domingo, 21 de Março de 2010

Ajudar e ajudar

imagem retirada da net

 

 

 


No computador a imagem parada de uma folha de Word ainda em branco. Na secretária roída pelo bicho da madeira uma imensidão de papéis por arrumar, que faziam duvidar de eficiência do sujeito sentado na grande cadeira preta já muito gasta e rota. No cinzeiro um cigarro a consumir-se sozinho. A lâmpada no tecto iluminava mal. Apenas o suficiente para que se visse o sitio das coisas. A janela ainda aberta mostrava a cidade iluminada.

Miguel vestia uma camisola de manga curta branca que já tinha visto lixívia …. Em tempos idos. O ar estava impregnado de cheiro a tabaco, perfume barato odores corporais. Miguel tinha as mãos apertadas uma na outra atrás da nuca e olhava pensativamente para a folha em branco.

Nenhuma ideia lhe ocorria. Nada.

“Maldito consultório sentimental.” Tantas choronas a pedir conselhos idiotas com pensamento idiotas

Mais uma vez tentou imaginar uma resposta politicamente correcta para dar aquela mulher que perguntava se poderia engravidar porque beijou o namorado. Também poderia ser gozo. Miguel achava impossível que alguém pensasse isso verdadeiramente. No entanto tinha que responder, não importava nada a sua opinião. Todos os dias lhe chegavam histórias fabulosas incríveis de tão parvas que eram. Todos os dias os emails lhe entupiam a caixa de entrada e a caixa do correio estava atafulhada de cartas cobertas de caligrafia quase analfabeta. Era triste. Sentia-se frustrado. Era um trabalho que não servia para nada. Nem ajudava ninguém, gozavam com ele e ganhava uma porcaria. Estava tudo mal. Sentia-se mal.

Pegou no casaco e saiu para a rua. Precisava de arejar. Estava escuro e não conseguia encontrar nenhum café aberto para comprar cigarros. Pelo menos o ar da rua ajudou-o a clarear as ideias…

“Que trabalho estúpido o meu….”

Miguel era boa pessoa. Aceitara aquele trabalho jornalístico porque tinha contas para pagar. Mas não era de todo o que gostaria de fazer. Nunca, em tanto tempo de faculdade, lhe tinha passado pela cabeça utilizar os seus conhecimentos de escrita para aquilo. Era quando uma desonra. Chutou uma pedra e doeu-lhe o dedo grande do pé. Um palavrão saiu-lhe entre-dentes.

“Se ao menos no meio de todos estes parvalhões alguém precisasse MESMO de ajuda…”

Dias depois teve uma surpresa quando chegou ao escritório. Uma rapariga esperava-o. Não teria mais de dezoito anos mas estava muito pintada e aparentava mais. Quando abriu a boca para dizer a primeira frase percebi que era uma pessoa pura da aldeia. Aquela capa de maquilhagem e roupas extravagantes era para enganar o primeiro olhar dos mirones.

- Preciso de ajuda senhor…

Miguel ficou sem saber o que dizer. Era a primeira vez que alguém o abordava. Era a primeira vez que tinha frente a frente alguém a quem respondera no consultório sentimental. Olhava para a rapariga e não dizia anda. Estava mudo.

- Preciso de ajuda….disse-me que deveria dizer ao pai do meu filho e agora ele escorraçou-me de casa e disse que nunca mais me queria ver…

As lágrimas corriam-lhe pela cara e Miguel teve uma vontade imensa de a abraçar, de a confortar. No entanto não se mexeu. Não fazia a mínima ideia de quem fosse a rapariga. Mesmo!

- Agora não tenho para onde ir, nem o que comer. Não sei o que fazer. Ajude-me senhor….eu confiei em si…

Miguel sentou-se e acendeu um cigarro. A rapariga mantinha-se de pé. Miguel olhou-a mais uma vez e fez sinal para que se sentasse na cadeira em frente à sua.

- Diga-me em primeiro lugar como se chama menina…

Uma expressão de surpresa atravessou-lhe o rosto. Miguel percebeu imediatamente que ela não estava à espera que ele não se lembrasse dela. Era ainda mais inocente do que tinha pensado.

- Margarida. O meu nome é margarida. Escrevi-lhe em tempos quando descobri que estava grávida. Não tenho pais, morreram. Também não tenho amigos porque vim da terra e não conheci ninguém ainda. Tenho estado quase escondida em casa… Quando lhe escrevi, imaginei que me fosse ajudar. Em vez disso correu tudo ao contrário.

A jovem mulher escondeu o rosto nas mãos e soluçou alto. Miguel não sabia como fazer, não sabia o que pensar sequer…

- Em que posso ajudá-la? Eu também não sei muito bem como fazer….diga-me o que posso fazer…

- Não sei…

Miguel olhou-a mais uma vez e sentiu uma pena infinita da rapariga. Ela estava sozinha, grávida, sem dinheiro, sem família. Desconfiava que se não a ajudasse agora ela se perderia no mundo e quem sabe que futuro seria o dela. Negro, disso não duvidava. Mas não sabia como ajudar… sentia-se impotente.

Levou -a para sua casa e deu-lhe de jantar. Fez a cama de lavado e cedeu-lha. Quando ela adormeceu ele ficou a olha-la durante muito tempo, depois deitou-se no sofá e passou a noite em claro sem conseguir conciliar o sono.

De manhã aconselhou-a a abortar. A esquecer o homem que a abandonara e a recomeçar tudo de novo. Margarida bateu a porta a chorar e Miguel não conseguiu deixar de a ouvir durante muito tempo na sua cabeça. Já tinham passado alguns minutos, ele não sabia bem quantos, quando se arrependeu do conselho. Tinha sido estúpido, muito estúpido. Miguel começou a correr sem parar, andou por muitas ruas, bateu a portas, perguntou a muita gente se a tinham visto e estava quase a entrar em desespero quando a viu. Margarida estava sentada no paredão da praia. Olhava o mar com uma expressão vaga de desalento.

- Margarida…desculpa….não faças o aborto. Não o faças…

Ela olhou-o como uma expressão interrogativa. Estava confusa e ele estava com um aspecto estranho. O suor corria-lhe pelo rosto cansado e o cabelo estava desgrenhado e as roupas coladas ao corpo.

- Margarida….vamos para minha casa. Podes lá ficar algum tempo. Vou ajudar-te. Tratas de ti e do bebé. Vais conseguir resolver a tua vida mesmo sem um pai para essa criança. Verás que sim. Vou ajudar-te no que puder. Não te vou desiludir.

Miguel não a desiludiu. Ajudou-a a encontrar uma casa de acolhimento, um trabalho. Ajudou-a com a amizade, com o carinho e a dedicação de amigo.

Depois, Miguel não conseguiu voltar a escrever para aquele absurdo consultório sentimental. Aproveitou os seus conhecimentos jornalísticos para escrever pequenos artigos para revistas sobre a maternidade, a parentalidade, as crianças órfãs, o aborto e muitos outros temas pertinentes, tentando sempre ajudar as pessoas a compreender e a encontrar a melhor forma de agir nos casos como o da margarida.

Miguel veste uma camisa branca, tão branca que fere a vista. Na sua frente uma secretária desarrumada e uma folha de Word em branco espera por ele.  Pela janela aberta o sol entra morno acompanhado do riso fácil de duas crianças. Uma mulher pede silêncio para não importunar o trabalho do pai. Miguel sabe que ajudou muitas mulheres e homens desde aquela noite em que conheceu a Margarida e isso fá-lo sentir felicidade pura. Miguel ouve as crianças e sente uma alegria monstruosa. Um sorriso abre-se-lhe no rosto. Já sabe o que vai escrever!

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

 

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Domingo, 14 de Março de 2010

O elogio das mulheres

 

imagem retirada da net

 

 

 

Simão era um homem que tinha crescido no meio dos homens. Simão era um homem que tinha aprendido que os homens é que devem mandar porque elas não tinham sido feitas para pensar. Simão era um homem que tinha aprendido que ser mulher é ser inferior. Simão era um homem que não conhecia as mulheres.

Depois, um dia, embarcou numa viagem sem retorno. Uma viagem de conhecimento, de revelações. Simão perdeu o pai com quem sempre vivera e com quem tinha sido sempre educado e vagueou sozinho pelo mundo. Ele era um homem muito observador e inteligente e por isso muito rapidamente absorveu muita informação. Simão estava estupefacto com as coisas que via. Simão queria entender.

Viu então muitas mulheres, viu-as verdadeiramente com os olhos ansiosos por aprender. Viu mulheres a trabalhar no campo, de mãos calejadas e costas dobradas. Viu mulheres nos hospitais salvando pessoas das garras da morte. Também viu mulheres salvando crianças das mãos de pedófilos e assassinos. Vou mulheres polícias e viu mulheres nas ruas vendendo o seu corpo para sustentar pais doentes e filhos pequenos. Viu mulheres sozinhas a cuidar das casas e dos filhos. Também viu mulheres que mesmo na adversidade não deixavam nunca de sorrir. Também viu mulheres enfermeiras que não saiam da cabeceira da cama dos doentes no último sopro de vida. Viu-as nas escolas a ensinar com uma paciência infinita, viu-as no laboratórios a descobrirem curas e vacinas para doenças raras. Viu mulheres que comandavam tropas e governavam países. Viu tantas e tantas e tantas mulheres que nunca deixavam de sorrir mesmo na adversidade dos dias mais difíceis. Viu mulheres no momento do parto. Viu mulheres a fazer um mimo na cara dos filhos. Viu mulheres na guerra e viu mulheres a amamentar. Viu mulheres que nunca desistiam por mais difícil que fosse o caminho a percorrer.

Tudo isto o alegrou. Tudo isto o espantou. Alem de tudo, espantou-o a capacidade maravilhosa de nunca deixarem de serem meigas e pensarem nos seus filhos ou mesmo nos seus companheiros homens. Ganhou uma profunda admiração pelas mulheres.

Um dia descobriu que se festejava o dia da mulher. Descobriu que nesse dia se compravam presentes e se faziam jantares. Que nesse dia se falava muito nas mulheres e que nos outros dias eram maltratadas e ignoradas. Nos outros dias os maridos gritavam-lhes e exigiam-lhe coisas absurdas. Nos outros dias eram apenas aqueles quem se esperava o trabalho, a meiguice, os sorrisos, o nunca barafustar ou dizer não. Nos outros dias dava-se como adquirido que a mulher não precisava de sorrisos ou obrigadas.

Simão não percebeu e recolheu-se um pouco. Precisava de pensar. Precisava de perceber no porque destas atitudes. Não era preciso haver um dia dedicado às mulheres porque o deveram ser todos. Não deveria haver um dia dedicado às mulheres porque não deveria se necessário lembrar todo o trabalho e que exercem todo o esforço que fazem. Deveria ser um dado adquirido que as coisas que as mulheres fazem são coisas normais mas que merecem reconhecimento e gratidão na mesma pela boa vontade com que são feitas. E isto não deveria ser por ser mulher ou homem mas por ser intrínseco a ser-se humano. Quem da tanto de si deve ser reconhecido e agraciado por isso. Assim, era como se dessem uma migalha de pão a um esfomeado. Era como se dissessem às mulheres: toma lá este dia e contenta-te. No resto dos dias nem vamos notar que existes. Simão não percebeu e doeu-lhe na alma.

Meteu então os pés ao caminho numa viagem longa de reflexão. Precisava de pensar em tudo isto. Percorreu muitos quilómetros. Conheceu muitas culturas. Dormiu com muitas mulheres. Amou-as todas. Precisava de perceber e mesmo assim não conseguiu. Quando voltou fechou-se em casa a escrever. Depois de muitos dias, muitas semanas, meses e anos, finalmente terminou, tudo o que precisava de dizer sobre a beleza exterior e interior das mulheres estava naquele livro. Era o elogio das mulheres. Simão estava velho. As barbas longas estavam brancas e o cabelo durante anos sem cortar caia-lhe pelas costas. Pegou no manuscrito debaixo do braço e deixou-o ficar nas mãos de uma mulher jovem e muita bela que por ele passou. Depois voltou asa costas e nunca mais ninguém ouviu falar dele.

O livro, esse, foi publicado e tornou-se a maior homenagem de todos os tempos às mulheres de todos os tempos, idade e classes sociais. Como não há autor, os direitos das vendas revertem a favor de casas para ajudar mulheres cujos homens costumam maltratar. Também se usa uma parte do dinheiro para descobrir a cura para doenças que são apenas das mulheres.

Muita gente lê o livro e, creio, não há ninguém que fique indiferente. Nem mulheres e nem homens. Creio que foi cumprido o objectivo de Simão, pelo menos um bocadinho em cada homem que o lê e muda a sua maneira de ver as mulheres. Agora só nos resta esperar que a humanidade se torne toda tão sábia como o Simão, lendo ou não a sua obra. Importa é que dentro do coração dos homens o mundo comece a ser mais justo.

 

 

Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira

 

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publicado por magnolia às 22:12
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