Domingo, 18 de Janeiro de 2009

A Carta que mudou a minha vida...

 

imagem retirada da net

 

- Sabes, minha querida, esta história podia contá-la tantas vezes quantas estrelas vês no céu.

- Conta mais uma vez avózinha, por favor...

- Está bem, vou contar...

“Naquele dia tinha chegado a casa cansada e deprimida. Tudo tinha corrido mal de manhã à noite, por isso quando entrei na porta atirei a correspondência para cima de uma mesa, carteira para o sofá, casaco na cadeira às três pancadas e fui para a janela ver o mar. Que bonito era o mar visto da minha janela. Era apenas uma nesga de mar, mas sabia-me tão bem num fim de dia chegar à janela e ver aquele bocadinho de azul... Transportar-me para outras paragens, apenas com um piscar de olhos... fiquei assim algum tempo, a pensar na vida, nos problemas, nas angustias. Depois a noite caiu e deixei de ver a nesgazinha de azul... Fechei a janela com pena e ia para o quarto deitar-me, numa tentativa de fazer terminar aquele dia o mais depressa possível, quando algo me chamou a atenção. Na mesa por entre as cartas do banco e anúncios publicitários estava um envelope amarelo, cuja pontinha de fora mostrava vários selos, sinonimo de que aquela carta não vinha de nenhuma instituição. Peguei-lhe a medo e fiquei a olhar, saboreando aquele momento de antecipação. O que estaria ali dentro?”

- Pois, minha querida neta, ali estava a carta mais bonita que já alguma vez recebi porque me deu a conhecer o teu avô.

“Abri a carta e lá dentro estava uma simples folha de papel amarelado, como se já tivesse sido escrita há muito tempo. Li a carta de uma vez só e depois li outra vez, e outra e outra, até que já sabia as palavras de cor. E mesmo assim nada parecia fazer sentido...

 

Minha querida,

 

Sei que vais achar esta carta no mínimo estranha, porque não me conheces, nem nunca ouviste falar de mim. Mas tenho esperança que em breve isso mude e que aceites conhecer-me.

A ti já te conheço sem nunca te ter visto. sei apenas o teu nome e pouco mais...mas sei que tens um enorme coração e o desejo de ser feliz. Também eu tenho esse desejo, minha querida. Li tudo o que escreveste e apaixonei-me pelas tuas palavras. Contigo fui ver mar, caminhei na areia, sofri, ri, amei. Juntos voamos pelos céus, vimos gente, vimos mares, vimos montanhas de fogo. Naveguei contigo por mares nunca antes navegados, naufragamos, mas sobrevivemos. Fomos a mundos que eu nem suspeitava que existiam. Contigo, guiado pelas tuas palavras, conheci um mundo rico de sentimentos e emoções. Vi a beleza que existe em ti e desde esse dia, nunca mais me saíste do pensamento, acompanhas-me para todo o lado, o tempo todo. Sei que te amo, minha querida. Sei que vais achar que sou louco... É verdade, eu também me sinto louco. Na verdade, se me acontecesse a mim, eu pensaria que a pessoa estaria louca. Por isso compreendo se neste momento estiveres a amarfanhar este papel, pronta para o atirar à lareira, de maneira a que desapareça para todo o sempre. E no entanto, tenho esperança que não o faças. Que acredites na sinceridade das minha palavras, que me dês uma chance de te mostrar que por vezes as coisas boas nascem de actos loucos como o meu. Que me deixes mostrar que este sentimento que nasceu apenas da leitura das tuas palavras, mesmo sem nunca te ter visto o rosto, é enorme, é sincero e é teu, todo teu...

Sonho em sentir a tua mão na minha, enquanto passeamos calmamente pela beira-mar...sonho em sentir os teus lábios nos meus em jeito de promessa de muitos mais...sonho em apenas com um simples gesto afastar-te o cabelo do rosto e olhar no mais fundo dos os teus olhos e ver um amor igual ao meu...

Deixo-te agora minha querida, já com saudades...e com esperanças que pelo menos tenhas a curiosidade de me conhecer um pouco mais...

 

Teu para sempre,

Com um beijo apaixonado....

 

 

- E pronto, depois desta muitas se seguiram e um dia estávamos casados e felizes. Mas isso tu já sabias!

- Pois sabia avózinha, mas gosto tanto de te ouvir contar isso....e também queria um dia ter assim um amor como o teu...

- E terás minha querida e terás...como vês, nada na vida é impossível, e às vezes o amor verdadeiro surge dos sítios mais extraordinários e maravilhosos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficção, escrito para a “Fábrica das histórias” por Cláudia Moreira

sinto-me: a sonhar...de novo
publicado por magnolia às 14:48
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Renascer

imagem retirada da net

 

Depois de ele ter ter sido enterrado ela deitou-se no chão em posição fetal e chorou. E chorou. Mas por mais que chorasse não conseguia lavar a sua alma. Estava negra de dor e tristeza. Acabara de perder tudo. O marido, o seu casamento, o amor de uma vida. Já nada mais lhe restava. Apenas a morte que tardava tanto em chegar.

Como poderia viver sem a razão da sua existência? De que servia trabalhar, ter uma casa, amigos? De que servia ter uma vida que já não fazia sentido viver? De nada… já não fazia sentido.

A custo foi sobrevivendo, vegetando, fazendo de conta que vivia. Passaram alguns dias e sentiu-me mal. Pensou que era da tristeza. Sim, ela sabia que a tristeza às vezes também mata e não se importou. Só mesmo quando a levaram em braços para o hospital é que seu deu conta que algo de errado se passava. Mas também não se importou.

Quando lhe vieram dizer que esperava um filho foi como se tivesse levado uma pancada. Sentiu-se atordoada. Uma dor visceral atravessou-a de um lado ao outro. Só lhe apeteceu morrer. Um filho de um morto. Nada poderia ser mais terrível.

Voltou para casa e a custo comeu, dormiu, trabalhou, mas nunca pensou no que lhe estava a acontecer, apenas pedia ao ser supremo que a levasse para junto do marido. Não queria viver nem queria ficar ligada a alguém que lhe lembrasse o marido defunto.

E assim os dias e os meses foram passando, uma estação deu lugar a outra e o dia da criança nascer chegou.

Estava cheia de dores e só maldizia a sua sorte. Estava sozinha, pois não tinha permitido a ninguém que a acompanhasse. As dores eram muitas e ela só chamava pelo marido morto. As enfermeiras estavam aturdidas. Nunca tinham visto uma mãe tão triste. Aos pouco perceberam que era uma jovem viúva amargurada e não lhe invejavam a sorte. Mas também não compreendiam como poderia ela não querer aquele filho. Mas na verdade ela não queria aquele filho e não se queria a ela própria. Estava demasiado deprimida.

A hora estava mesmo a chegar, na cama do hospital ela contorcia-se de dores. Gritava mudamente. A parteira ajudou-a com o bebé, uma enfermeira deu-lhe a mão que ela agarrou furiosamente e outra limpou-lhe a testa molhada. E por fim o bebé nasceu. Era um menino.

Ela não conseguiu reter as lágrimas. Era um menino tão lindo, pequenino, frágil, indefeso. Puseram-no em cima do seu peito. Ela devagarinho tocou-llhe e sentiu a pele quente, o corpo macio de bebé. Um choro baixinho saiu da sua boca e as mãozinhas no ar em busca de algum apoio. Aos poucos abraçou aquele corpinho, embalou-o nos seus braços cansados. Encostou a cara à cabecinha do pequenino ser e fechou os olhos. A emoção invadiu-a em ondas reflectidas. De repente sentiu-se cheia de amor por aquela criança. Ali dentro daquele bebé minúsculo corria o sangue do amor da sua vida. Era fruto dele. O seu próprio sangue também corria dentro desse bebé. Com muito, muito amor, eles tinham feito uma nova vida. As lágrimas secaram como por magia. O peso no peito desapareceu. Um sorriso tímido surgiu nos seus lábios. Sentiu o pulsar do pequeno coração no seu peito e viu pela primeira vez em muito tempo um raio de sol a entrar pela janela.

Quando lho tiraram do peito para o levar para limpar e vestir pareceu-lhe a ela que lho arrancavam à força. Tantos sentimentos que de repente mudaram dentro de si. A tristeza deu lugar à alegria, a raiva deu lugar à tranquilidade, a revolta deu lugar à paz e a angustia deu lugar a um amor enorme por aquela criança. Sentiu que nascia de novo juntamente com aquela criança. Sentiu que a alegria de viver nasceu de novo com aquele menino. Sentiu que a vida lhe deu uma segunda oportunidade de ser feliz. Aquele menino era uma vida nova e ao mesmo tempo era a continuação daquela que perdera. Sentia-se me paz, finalmente.

A enfermeira veio trazer um embrulho onde espreitava um rostinho minúsculo e perguntou como se iria chamar o bebé.

- Gabriel, como o pai…

 

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias

Autor: Cláudia Moreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sinto-me: pensativa
publicado por magnolia às 18:59
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

E foi assim...

imagem retirada da net

 

Íamos as duas de mãos dadas, saltitando felizes pelos passeios das ruas iluminadas para o Natal, vendo montras e chilreando como passarinhos na Primavera.

- Mãe! Olha que camisola tão linda!!

- Mãe! Posso ter aquela boneca? É tão linda!

- Vamos ver filha, vamos ver…

- Mãe! E aquele carrinho de chá?

Eu ria-me. E ela também. Tantos pedidos! Tantos desejos! Os olhos dela brilhavam de felicidade inocente.

- Olha! Olha! Olha! – Largou-me da mão e correu a colar o nariz no vidro da montra dos brinquedos. Um enorme comboio colorido corria pelos carris em miniatura deitando fumo pela pequenina chaminé. Que delicia.

Foi nesse momento que várias pessoas se meteram entre nós e deixei de a ver por escassos segundos. Apressei-me na direcção dela, mas quando cheguei ao pé do vidro já não a vi. O meu coração deu um salto e um grito ficou sufocado na minha garganta. Olhei para um lado e para o outro e via-a dobrar a esquina. Corri atrás e vejo-a a olhar para um menino de pé descalço e ranho no nariz que a olhava também. Ia para ralhar pois ainda não estava refeita do susto, mas fiquei a ouvir, protegida pela sombra da noite.

- Estás descalço? Não tens frio?

- Tenho...mas não tenho sapatos.

- Não tens sapatos? – a voz dela mostrava a surpresa que essa informação lhe causava.

- Não, não tenho. O meu pai é doente e não trabalha e a minha mãe também não. Está desempregada.

- Isso quer dizer que não vais ter presentes de Natal?

- Nunca tive nenhum. Às vezes o meu pai trazia uns brinquedos usados da casa de uns tipos ricos e dáva-nos. E roupas também. Mas agora não sai de casa e a minha mãe bebe muito.

A minha filha estava de lágrima no olho, pude perceber pelo tremer da sua vozinha de criança.

- Vou pedir à minha mãe para te dar um presente...

- Achas que ela faria isso? – a ansiedade na voz do rapazinho fez-me sentir um aperto no peito. E se fossem os meus filhos?

- Claro que sim. Eu peço coisas e ela dá-me, por isso se pedir para ti ela também vai dar!

Neste momento aproximei-me e pedi ao rapazinho que me levasse até casa deles. Dei a mão à minha filha e fomos andando por becos escuros e ruas sujas, bem diferente da rua de onde tinhamos vindo, cheia de luzes e pessoas bonitas e bem vestidas.

Entramos numa casa muito pobre. Lá dentro um homem estava numa cadeira de rodas e uma mulher estava caida no sofá a dormir. Duas crianças pequenas choravam num berço que já não era novo há muito tempo...

As lágrimas vieram-me aos olhos e ao olhar para a minha filha que ainda não tinha completado dez anos, vi que também ela chorava.

- Mãe...quero dar as minhas prendas todas a estes meninos...

Acariciei os seus cabelos e sorri entre lágrimas com tanta generosidade.

- A mãe vai resolver isto, não te preocupes.

Ainda antes do dia de Natal a mãe do rapazinho de pé descalço estava a trabalhar e tinham roupa suficiente para o Inverno todo. Montamos uma arvore de Natal e enchemos a despensa para um mês inteiro. No dia de natal fizemos questão de convidar esta familia para jantar na nossa casa.

Via-se que estavam felizes. Às vezes dar a mão a alguém pode fazer toda a diferença. A esta familia fez diferença e a nós não fez diferença nenhuma, ter mais um presente ou mais um pouco de comida na mesa. Repartimos o que tinhamos e tambem nós sentimos o nosso coração cheio de alegria.

Esta história já aconteceu há muitos anos, mas é uma história que se repete ano após anos. Eu e minha familia prometemos que enquanto tivessemos forma de ajudar o fariamos, por isso todos os anos por altura de Natal vamos à procura destes meninos de rua. Vamos tentar de alguma forma tornar o seu Natal mais bonito, mais quente, mais doce.

A minha filha cresceu e hoje é ela que trata disto tudo. Digo sempre que é ela a culpada desta tradição, e é, porque não houve ano nenhum que não tivesse sido ela a primeira a falar no assunto assim que Dezembro espreita no nosso calendário...

 

Texto de ficção para a "Fábrica das Histórias"

Autor: Cláudia Moreira

 

 

 

sinto-me: no espirito natalicio
publicado por magnolia às 00:26
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A paisagem da minha vida...

imagem retirada da net

 

 

Naquele primeiro encontro eu não sabia lá muito bem o que esperar do Francisco. Falamos algumas vezes no bar da empresa, mas confesso que não estava muito esperançada. Ele era assim um pouco calado e tinha ar de quem passa muito tempo atrás de um monitor de computador. Mas como me convidou com o seu melhor sorriso, aceitei. Combinamos para sábado. Já estava a pensar que roupa haveria de vestir, atendendo a que não sabia a que restaurante me levaria quando ele me diz que vamos sair de manhã. A minha cara deve ter dito tudo, porque ele se desmanchou a rir.

- De manhã Francisco? Onde vamos?

- Vamos conhecer o lugar mais bonito do mundo!

Deixei-me ir sem muitas perguntas. Não sei bem porquê, mas confiava nele. Veio buscar-me de manhã cedinho e fomos estrada acima, sempre para Norte, o mar azul e o sol a servir-nos sempre de companhia. Foi já muitos quilómetros depois que me pediu uma coisa estranhíssima, pediu se poderia vendar-me os olhos para me fazer uma surpresa! Uma quantidade enorme de pensamentos estranhos invadiu a minha cabeça, mas concordei. Já que tinha vindo até ali, iria até ao fim. E fiz bem, porque no momento em que o Francisco me tirou a venda e vi a paisagem, fiquei sem palavras, tal era a beleza do lugar…

Estávamos num promontório. O mar azul, imenso, belo, estava a ali a perder de vista. A linha do horizonte mal se via tal era a intensidade do azul do céu. O sol derramava os seus raios brilhantes no mar, transformando as pequenas ondas em milhões de diamantes cintilantes. À minha frente ficava um pequeno miradouro feito de madeira já velha, um pouco carcomida pelo tempo. O chão estava sulcado de erva fresca e verde e aqui e ali florzinhas amarelas e lilases coloriam o chão. Um cheiro doce chegou-me às narinas e depressa me apercebi que eram madressilvas. Olhei para o lado e lá estavam alguns arbustos cobertos de madressilvas cheirosas. Pequenos pássaros cinzentos cruzavam o céu e de vez em quando uma gaivota assomava perto da arriba soltando os seus gritinhos agudos. O calor do sol aquecia-me a pele, e uma ligeira brisa afagava-me os cabelos e fazia dançar o meu vestido primaveril. Aproximei-me da arriba e encostei-me à vedação. Lá em baixo podia ver as ondas a rebentar furiosamente nas rochas, fazendo saltar espuma branca para todo o lado. Ao longe uma praia de areia branca e completamente isolada convidava a devaneios de verão. Que vontade de ir até lá, despir o vestido e entrar nas aguas azuis e frescas do mar.

Quando me voltei, Francisco tinha posto uma manta de trapos no chão, uma toalha de quadrados brancos e vermelhos em cima e esperava por mim para o almoço. Quando me aproximei, estendeu-me a mão e ajudou-me a sentar. Na cestinha de pic-nic feita em palhinha, trazia frutas da época deliciosas e champanhe. Conversamos, rimos, brincamos e a tarde passou tão depressa que nem me dei conta. O sol já estava com vontade de se esconder, o céu ficou laranja, rosa, coral, tantas cores, transformando-o num quadro digno de estar no Louvre. Andei até à vedação para me poder deliciar com aquela imagem. Uma brisa mais fresca fez-me estremecer. Nesse instante dei-me conta que o Francisco estava atrás de mim e me punha o casaco dele pelas costas. Ficamos assim, muito próximos, a olhar o mar, o sol a pôr-se devagarinho, desaparecendo aos poucos atrás das águas, sentindo-me tão tranquila, tão em paz que não tinha a mínima vontade de sair dali. E foi precisamente neste instante que nos olhamos nos olhos por um momento esquecendo tudo em volta, e aproximamos os nossos lábios num beijo tão ternurento e tão intenso que nada mais nos importou. Foi o primeiro dia do resto das nossas vidas e aquele lugar é o lugar mais perfeito ao cimo da terra. Ainda hoje, passados tantos anos, vamos lá em passeio a todo o instante e todas as vezes selamos o nosso amor com um beijo ternurento e intenso junto à vedação com vista para o mar.

(texto de ficção para a Fábrica das histórias)

 

 

 

 

 

sinto-me: sonhadora
publicado por magnolia às 12:36
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Sessenta e uma caixinhas de chocolate...

imagem retirada da net

 

 

Ela ouviu bater à porta e correu até lá na esperança de descobrir à porta a sua amiga de infância que viria visita-la por esses dias. Mas não era, aliás, não viu ninguém.

- Humm…estranho…

Já ia a fechar a porta quando viu no chão em cima do tapete que diz bem-vindo, uma caixa com um laçarote vermelho. Pegou nela e com a testa franzida e muitas perguntas na cabeça abriu-a. Dentro da caixa descobriu uma caixa de chocolates suíços, precisamente os seus favoritos! Sorriu assim um sorriso imenso, como uma flor que se abre ao sol. E no entanto… estava mesmo curiosa de saber quem a teria presenteado… abriu a caixa, comeu um e com um encolher de ombros, guardou-a.

No dia seguinte estava no banho quando lhe bateram novamente à porta. Saiu da banheira a pingar agua, enrolou-se numa tolha, quase caía no chão molhado da casa de banho e correu para a porta. Ninguém.

- Mau. Já não estou a achar graça nenhuma. – Olhou para baixo e lá estava, mais uma caixa com o mesmo papel de embrulho e o mesmo laçarote.

- Mau, mau. Mas quem será esta pessoa tão misteriosa!!??? – Agora ela estava mesmo intrigada. E chateada e com frio! Voltou rapidamente para o banho mas não conseguia deixar de pensar naquilo. Ela gostava muito de livros de mistério, mas não achava graça nenhuma a mistérios na sua vida. E aquilo não lhe saia da cabeça e no dia seguinte quando chegou mais uma caixa ainda pensava nisso e durante um mês todos os dias uma nova caixa era depositada em cima do tapete a dizer bem-vindo.

Foi só no trigésimo primeiro dia que se fez alguma luz sobre o mistério. Dentro da caixa vinha também uma rosa e um bilhete. No bilhete podia ler-se uma linda declaração de amor:

 

Minha querida,

 

Foram precisos trintas dias para ter coragem de juntar aos chocolates estas palavras. Tive sempre medo…medo que te risses de mim, medo que não me levasses a sério, medo... medo de nunca mais te ver. És tão especial minha adorada Ana. És a mulher mais bela que já vi em toda a minha vida. És a mulher mais bondosa que já conheci. És a mulher mais corajosa de que já ouvi falar. És aquela que eu amo desde sempre e para sempre amarei…

 

                                                                         Para sempre teu…

 

 

Não vinha assinado!!! Era o cúmulo! Estava indignada! Tinha alguém que gostava dela e não se identificava? Ela que estava sozinha há tanto tempo? Quem era esse homem que tinha medo de se mostrar?

Durante os vinte e nove dias seguintes recebeu vinte e nove caixas de chocolates, com vinte e nova rosas e vinte e nove bilhetes de amor…

A indignação deu lugar a um sorriso, o sorriso deu lugar a muitos sorrisos, e os muitos sorrisos deram lugar a ansiedade pelo dia seguinte até chegar mais uma caixinha. Sentia-se apaixonada por um ser sem rosto, sem corpo, uma pessoa que através da leitura dos bilhetes sentia ser uma pessoa maravilhosa e sentia o imenso amor que tinha por ela. E foi depois de sessenta dias que finalmente chegou o convite para jantar. Vinha com uma caixa especial de bombons em forma de coração. Vinha acompanhada por uma rosa vermelha tão bela que parecia veludo e trazia o convite para jantar no restaurante mais romântico da cidade na noite seguinte. Ana sentiu o coração disparar! Mil pensamentos atropelaram-se na sua cabeça sobre o que vestir, como agir, quem seria que iria encontrar…

Eram quase oito horas quando chegou ao restaurante. Levava um vestido preto curto, sapatos de salto alto e apesar do Outono, um casaquinho ligeiro completava o conjunto. Estava maravilhosa! Chegou ao restaurante e disse o seu nome. Levaram-na através do restaurante até uma mesa que ficava mais ao fundo do restaurante, uma mesa que dava para um terraço virado ao mar, cortinas de organza dançavam suavemente com a brisa da noite e duas velas ardiam na mesa junto a uma rosa vermelha. E quando ela chegou quem se ergueu para a receber foi o seu colega de trabalho de tantos anos, o seu companheiro e melhor amigo, Jorge. Ela ficou atordoada por um momento, quase sem respirar, pensou em tudo o que passaram juntos, em todas as conversas que tiveram, pensou nos chocolates, pensou nos bilhetes, pensou que não sabia o que dizer… Jorge agarrou na mão dela, beijou-a e fez com que se sentasse, sempre a olha-la nos olhos. Ainda não tinham passado dois minutos quando Ana compreendeu que já o amava também, que aquilo era mesmo a realização dos seus sonhos. Amava o seu melhor amigo e o seu melhor amigo amava-a a ela. Nada poderia ser mais perfeito: o amor e amizade de mãos dadas para toda a vida!

 

 

 (texto de ficção escrito por mim para a Fábrica de Histórias)

 

sinto-me: sonhadora
publicado por magnolia às 12:17
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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

A história de uma mentira sem perdão

imagem retirada da net

 

 

 

 Texto de ficção escrito para a "Fabrica das Historias"

 

Tudo começou com aquela mentira para o afastar de si. Não queria que ficasse consigo por pena. Sara era assim: ou tudo, ou nada. Por isso disse-lhe que aquela noite não tinha tido significado nenhum e que ele podia muito bem ir à vidinha dele. E ele foi. Sara verteu muitas lágrimas, passou muitas noites em claro e um dia descobriu que ele namorava e estava muito feliz. O seu mundo desabou, saiu, bebeu, bebeu e bebeu e foi parar ao hospital. E foi ai que descobriu uma coisa que iria mudar a sua vida para sempre: estava grávida de quatro meses. Aquela noite tinha-lhe dado um filho e agora estava sozinha e ele estava apaixonado e feliz, mas por outra e ela não sabia o que fazer com a sua vida. Com aquele filho inesperado…

A barriga cresceu transportando dentro dela uma menina de nome Maria que Sara exibia orgulhosamente. E foi num dia em que muito perto dos nove meses, Sara passeava devagar por causa do peso da barriga, que surgiu a segunda mentira. João viu-a e ficou muito surpreendido com o estado de Sara. Quando lhe perguntou de quanto tempo estava e Sara percebeu onde ele queria chegar hesitou apenas uma fracção de segundo antes de responder que estava de oito meses. Ele pareceu ficar ligeiramente desapontado mas disfarçou bem, deu-lhe os parabéns e desejou-lhe toda a sorte do mundo. E ela não teve coragem de correr atrás, e não reparou a mentira em que entrara há nove meses atrás e também não desfez a que acabara de dizer.

O tempo passou e a Maria cresceu e começou a fazer perguntas. Mais uma vez Sara refugiou-se na mentira porque não saberia lidar com a verdade e com as consequências que essa verdade acarretaria. Disse que o pai tinha morrido logo depois de terem casado. Maria cresceu dizendo a todos que era órfã de pai. Maria não estranhou que tinha apenas o nome da mãe porque era inocente. Maria quase todos os dias via e falava com o João. Ele era professor de matemática da escola que Maria frequentava e tinha calhado ser professora dela, facto que gelou o coração de Sara no dia em que descobriu. João nem suspeitava que aquela adolescente sorridente que lhe calhara ensinar nesse ano era filha de Sara e muito menos dele próprio. E foi esse sorriso que o levou a gostar de Maria de uma forma especial. E aquilo que era suposto ser uma simples atracção da aluna pelo professor mais velho mas bem parecido passou a uma atracção verdadeira entre uma mulher e um homem no dia em que se reencontraram na faculdade, mais uma vez ela como aluna e ele como professor. E foi já depois de vários passeios na praia de mão dada que Maria disse em casa que iria jantar com o João. O mundo fugiu debaixo dos pés de Sara quando ouviu aquele nome. A custo perguntou quem era e Maria sorridente e feliz disse que era aquele professor bonito de olhos azuis, olhos que eram cópias dos dela. Sara ficou calada, colada, petrificada e nem reagiu quando a filha saiu.

Um pouco mais tarde Sara levantou-se, ligou à filha a saber onde estava e como um autómato foi ter ao restaurante, onde os encontrou de mãos dadas, felizes, olhando-se nos olhos, prometendo amor eterno.

De principio nenhum deles entendeu o que estava ela ali a fazer, a filha sem saber porque a mãe interrompia o seu jantar e o João por não saber o que tinha ela a ver com Maria.

Ela disse apenas estas palavras:

- João, a Maria é tua filha.

Virou as costas e saiu. Não conseguiu suportar a confusão e depois a dor que viu nos olhos de ambos.

Nenhum dos dois lhe perdoou. Ele porque passou vinte anos sem saber que tinha uma filha e ela por ter passado vinte anos sem saber que tinha um pai.

Ainda hoje Sara não se perdoa. Já passaram muitos anos, o seu cabelo ficou branco, as rugas vieram para ficar, as costas já não as endireita e o coração continua ferido com a ausência da sua filha, com a ausência do seu perdão. E enquanto Maria não lhe perdoar esta grande mentira que durou vinte anos e nove meses, também sara não se perdoa por ter mentido…

 

sinto-me: a romancear
publicado por magnolia às 19:31
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