Domingo, 24 de Outubro de 2010

Ser ou não ser

 

 

Ser verdade que tenho razão….ou não ser. Uma dúvida no coração, uma pergunta constante na boca. Penso que tenho. Tenho a certeza de que tenho.

O João quer um filho. Eu não quero. O João diz que sou egoísta. Eu digo que não. O João diz que é injusto e nisso até concordamos, porque o é, mas para mim.

Começamos a namorar há cerca de dois anos. Uma relação de brincadeira depressa se transformou numa relação concreta. Um mês depois de nos conhecermos o João mudou-se para minha casa. De filhos não falamos mas ele sabia de sobra a minha opinião. Eu tenho um filho a caminho dos vinte anos e o tempo de bebés e fraldas e papas já ficou para trás. Tenho praticamente quarenta anos e apesar de adorar o meu filho não me vejo novamente a passar pelos primeiros anos de vida de um filho.

Para mim uma mulher quando tem um filho recebe uma dádiva, mas, para que o seja efectivamente é preciso que esteja pronta. É preciso que esteja preparada porque depois da notícia da gravidez a vida de uma mulher muda tanto como se fosse viver para outra galáxia e se não estiver, poderá ser o contrário de uma dádiva, poderá ser uma fonte angustias. Nesse momento a mulher ainda não sabe, apenas está feliz, mas mais tarde verá que um filho muda o mais profundo de nós, interno e externo. Nunca mais uma mãe tem um minuto de relaxamento puro porque aquele ser que depende de nós nos enche a mente completamente, amedronta-nos o coração, faz-nos viver em alerta constante. É uma vida que está ali por nossa causa e pela qual somos responsáveis. E que não fossemos, amámos essa vida mais do que a nossa e isso por si só é uma prisão eterna. Depois a parte externa também representa uma boa dose de preocupações. O choro do bebé, as incertezas de mãe, os hematomas na cabeça, as gripes e a varicela. As alergias, as mãos a procurar tudo no chão. As brincadeiras perigosas, os estudos, os amigos que nunca sabemos quem são, os perigos eminentes desta nova era. As primeiras paixões, as suas lágrimas, o futuro incerto, a falta de emprego. Nada disto é fácil de gerir por muito que amemos os filhos. Uma mãe nunca dorme, nunca relaxa. E se tiver dois filhos tudo isto duplica e se tiver três triplica e por aí adiante.

E eu já não tenho condições para duplicar estas preocupações na minha vida. Anos e anos de luta deixaram-me esgotada.

O João diz que divide tudo comigo. Um homem nunca consegue dividir esta carga com a mulher. Pode ajudar, se for uma pessoa justa, se gostar dela e dos filhos, mas dividir a meio como ele faz crer não é possível. É a mãe que está sempre lá quando é preciso. É a mãe que carrega a criança, é a mãe que pare, é a mãe que amamenta, é a mãe. A mãe é a mãe, insubstituível.

O João acha que por não ter filhos tem o direito de me obrigar a tê-los. Acha que lhe devo isso. Pergunto-lhe então se acha que devo ter um filho por obrigação. Diz o João que se nos amamos é por amor. Eu digo-lhe que por amor então ele também aceitaria não ter filhos, por amor a mim. Mas o João insiste que o estou a privar de ter um filho. Eu digo-lhe que o pode ter com outra qualquer.

Raramente me sinto assim, indignada com ele. Mas agora sim, sinto-me indignada com ele. O corpo é meu, a vida é minha. Os homens podem permanecer ou não na vida das mulheres, os filhos ficam para sempre. Não me sinto com capacidade para pôr mais um filho no mundo. Não consigo abdicar da minha recente liberdade conquistada com o crescimento do meu filho. Não me sinto capaz de voltar a estar presa a um criança indefesa por mais dez ou quinze anos. Não me considero egoísta, apenas honesta com o meu eu. Custa-me pensar que este homem que diz amar-me me põe entre a espada e a parede. Custa-me pensar que alguém é capaz de achar egoísmo uma escolha de vida. Então também poderei considerar egoísmo alguém querer que eu passe nove meses grávida a agoniar, horas em trabalho de parto, noites e noites sem dormir, fraldas e biberões, galos e varicelas durante os anos que possivelmente serão os únicos que terei com saúde antes da velhice pura?

Não vamos conseguir concordar. Talvez tivesse sido bom falarmos nisso antes… Assim não haveriam desejos defraudados e lágrimas dolorosas. Talvez seja esta a nossa última discussão.

Retiro disto tudo que não adianta amar muito o nosso companheiro. Os nossos desejos estarão sempre primeiro. E além disso, da próxima vez que alguém me convidar para um café pensarei sempre duas vezes ou levarei comigo um questionário completo para preencher com todas perguntas, tentando antever todos os cenários possíveis e imaginários!!

 

Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias, Cláudia Moreira.

sinto-me: :(
publicado por magnolia às 23:30
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